arte: loro verz

Curitibano dos pés à cabeça, cheguei a São Paulo há uma década. Meu primeiro fascínio, como de tantos, foi com o metrô. Eu já contava 21 anos. O ruído ensurdecedor, a rapidez, a aridez, a impessoalidade. Mesmo abaixo da terra a cidade sem horizontes me impressionava.

Desde então, São Paulo para mim se metaforizou no metrô; e o metrô, em São Paulo. O tom cinzento, o rosário indefinível de freios e aceleração, as paqueras, as pastinhas, as platitudes, a mistura de classes, a eficiência sobre todas as coisas.

Meu primeiro endereço foi um hostel barato na Praça da Árvore. Era distante do meu destino diário, o jornal onde estreava como trainee, mas era perto do metrô, e paulatinamente [paulistanamente] essa palavra foi adquirindo poderes panacêuticos. “É perto do metrô?”, eu perguntava, a qualquer sinal de deslocamento. Fosse lazer, fosse trabalho, confortava-me a possibilidade de chegar ao meu destino de metrô – não importavam as quantas baldeações. Tolo, divertia-me com o nome das estações. Consolação. Paraíso. Movia-me entre esses dois eixos, perdido nas escamas de São Paulo.

Por anos, a propósito, fui irracional no uso do metrô. Preferia três baldeações diárias a qualquer outra alternativa. Demorou para que eu desmamasse do metrô. Levou tempo até que me arriscasse com ônibus, e ainda mais para assumir os riscos do volante – ainda hoje, raramente sem acionar o GPS, que uso como a criança que se conforta em rodinhas de bicicleta.

A maioridade, em São Paulo, é atravessar suas regiões, cruzar as ligações leste-oeste, norte-sul, sem auxílio de mapas.

Como repórter, fui muitas centenas de vezes do centro à periferia e aos mais recônditos recôncavos do ABC. Mas sempre com o motorista da empresa, que aliás se divertia de minha desorientação: toca para Parelheiros. É perto do Pari?

Eu ainda lia a cidade alfabética, e não geograficamente. Hoje sei que é humana, como todos nós, e a leio assim, como um psicólogo.

Certa noite dirigi do Belenzinho até a minha casa, na zona oeste, após uma reunião de trabalho. Era noite e chovia torrencialmente. A distância a cobrir ultrapassava os 20 quilômetros. Foi a minha primeira vez [de tantas primeiras vezes no convívio com a grande cidade].

O processo de urbanização se completou em mim naquela noite. Do leste ao oeste, atravessando camadas da pele paulistana enquanto a cidade, colossal, convulsionava em água – como em todo verão. Eu deslizava, epifânico, sobre lâminas escorregadias.

Via os muros da cidade pintados, tatuagens na pele paulistana, evocando uma metrópole brutal e cinzenta, depressiva e sem amor – discurso que tantas vezes, equivocado, repeti. Atravessando a epiderme paulistana, contudo, vi que a cidade não era cinza; tinha um bonito tom de pôr-do-sol, entre o laranja e o vermelho. No meio da enchente a cidade me acolhia, apontava caminhos. Parei num bar enquanto São Paulo e São Pedro se desentendiam. No meio do tumulto, as pessoas sorriam. Havia amor, e onde melhor amei foi em São Paulo. Nos bares de São Paulo, nos restaurantes, nos cantos onde paulistanos de todas as latitudes derramam infinitas histórias de vida. E o que é a cidade senão essa antologia, as histórias de milhões de almas esperançosas e aflitas?

Sob a pele tão bruta, São Paulo ama; é amor.

Todo mundo deveria passar uma temporada em São Paulo, digo aos amigos que ficaram em Curitiba, para ter ao menos um épico de vida, ao menos uma história enriquecida pelas infindáveis tramas, infindáveis escamas, da cidade.

Atravessando as escamas da metrópole vi que sua pele, logo abaixo, era suplicante e macia.

Não fui tão rápido quanto o metrô, mas fui persistente. E cheguei lá.

A gente leva uma década para chegar a São Paulo.