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arte: loro verz

 > Todas as cidades têm uma alma – às vezes, bem oculta. Algumas são relativamente fáceis de detectar: estão à flor das ruas, esperando para serem admiradas, tocadas e sentidas. A alma barroca de Ouro Preto, a alma solar do Rio de Janeiro, risonha, apenas maculada por uma gota de tristeza fugidia. Outras são quase invisíveis. De face diminuta e coração infinito, podem se esconder numa gota de orvalho ou no fundo do sepulcro da Sé.

O tamanho da alma não se prende ao tamanho da cidade, nem sua expressão. É um espírito independente, construído sobre séculos de passadas, romances, funerais, batalhas, lágrimas, fome, fé e suor. Algumas cidades restritas a não mais do que uma avenida e cinco ruelas podem ter uma alma infinita, pairando como um guarda-chuva prenhe de significados.

Mas São Paulo é um caso à parte.

Alpinistas, astronautas, arqueólogos e escafandristas se digladiam em busca da alma paulistana. Poetas, romancistas, pintores e escultoras tentam apreendê-la. Soldados, operários, professores e jornalistas têm às vezes a impressão de vê-la, na hora do desamparo, com os olhos baixos.

São Paulo é um mistério, e muitos são categóricos ao decretar a falência da metrópole. O Chico, por exemplo, disse que não aguentava mais esta cidade desalmada – quer voltar para o seu Rio de Janeiro, solar. Ele é de lá, acostumado àquela alma exposta, que brota pelos poros das avenidas como os grãos de areia de suas praias.

Mas discordo. São Paulo não é uma cidade desalmada, e sim mais uma cidade de alma oculta. Poderia ter olhos de cigana oblíqua e dissimulada, mas recorrer ao gênio carioca não faria jus aos gênios paulistanos. Melhor parafrasear Mário de Andrade, este nascido e morto no ventre de cimento, que dizia não ter tempo para mediocridades.

São Paulo é mais Mário do que Machado, São Paulo parece, no fundo de sua alma fugidia e mutante, não ter tempo para mediocridades. São Paulo não tem tempo para nada, e o tempo em São Paulo segue num ritmo que só os paulistanos dominam. Não é o tempo do trânsito parado, mas o tempo da fumaça dos escapamentos, que no ar desenha sonhos – sonhos de grana e sonhos idílicos. É o tempo das passadas da multidão sem nome.

Talvez por isso São Paulo seja hostil com os velhos. A cidade que não para não suporta encarar muito a face enrugada daqueles que a construíram. A alma de São Paulo é adolescente, rebelde. Gosta de festas, barulho, rompantes voluntariosos de afeição extrema ou estranhamento gelado. Diferentemente de Santos e do Rio, São Paulo prefere que seus velhos fiquem em casa, porque está toda mobilizada em erguer o novo. Um jovenzinho que já passa dos 460 anos.

Quando falo em velhos, falo também em construções, em sítios históricos. Os velhos casarões da Paulista viram shoppings ou se deterioram lentamente diante dos olhos indiferentes dos adolescentes que vêm e vão pela avenida. A juventude é longa, em São Paulo, e a velhice, um mistério sombrio. Os bares e restaurantes ostentam orgulhosamente placas informando que estão de pé “desde 2002” ou “desde 1994”, como se fizessem parte da mais remota história bandeirante. É essa a velhice em São Paulo.

Sim, mas até quando?, responde São Paulo, rindo de tudo e de todos sobre os trilhos de sua locomotiva incansável.

A discreta alma da cidade, às vezes vislumbrada no desenho da fumaça, na fuligem do grafite, no toc toc dos sapatos, sabe que é invencível. Como todo adolescente, São Paulo anda de peito estufado proclamando suas certezas. A incerteza custa caro, em São Paulo.

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