arte: loro verz

Desde sempre tenho ouvido que a vida ensina. A vida ensina, meu filho, dizia a mãe. A vida ensina, repetem os sábios de todos os cantos do mundo. Os desgostosos, os desiludidos da Gare du Nord, com o cigarro dançando entre mãos e lábios, murmuravam baixinho num tom de maldição: la vie nous apprend beaucoup de choses.

Deixei, então, que a vida me ensinasse. Eu tinha apenas 18 anos e vagava por Paris à noite, ávido por uma experiência efetivamente pedagógica. Bolsista quase falido, já com os centavos literalmente contados, nos últimos dias da viagem. Tinha exatamente o suficiente para uma modestíssima refeição por dia, água da torneira e uma única passagem de trem até o aeroporto. Não falava quase nada de francês, mas era educado, e a vida, a melhor professora.

Paris era uma fresta. Sim, a fresta luminosa diante da qual eu, acanhado, provinciano, incapaz de frequentar uma festa, observava a imensidão do mundo. Era a minha primeira viagem para fora do país, e ia sozinho. Vagava. A dez metros de distância, apaixonava-me pelas garotas francesas – sempre me apaixonei platonicamente pelas garotas francesas. Só de ouvir o serpenteio de sua língua divagante, úmida, eu desmanchava.

Eu tinha 18 ou 20 anos e não sabia muito da vida – exceto, é claro, que ela tudo me ensinaria. Tateei Paris à espera de notícias.

Há dias recebi uma triste notícia: uma querida professora havia morrido. A primeira lembrança que tive foi de sua voz, como nas francesas invisíveis que vêm e vão em sonhos. Mas a minha professora de literatura do colegial, negra, corpulenta, sorridente, era deliciosamente brasileira. Acolhia a todos com sua ternura infinita, divagando sobre Guimarães Rosa, Drummond, Bandeira. Vagando por sua fértil Paris imaginária, entretecendo Macunaímas e Diadorins. Ela sorria e falava e eu, tocado, aprendia.

O conhecimento se apreende tanto pela hermenêutica (a leitura e interpretação de textos) como pela empiria (a experiência concreta de mundo). Complementam-se, sem hierarquia.

A professora Gabriela foi a minha hermenêutica; li, no seu sorriso generoso, que as duas metades da psicologia humana cabiam numa peça de Shakespeare. “Renato, você tem cara de príncipe Hamlet.” E ria. Eu tateava oceanos de palavras – às vezes, naufragava. Não entendia, não avançava. Então me puxava à tona. “Vamos por aqui”, dizia. E eu, ainda tacanho, ainda sem entender muito de nada, flutuava pelas margens de sua poesia. Ia.

A professora Gabriela fez falta em Paris. Gostaria de tê-la levado comigo. Gostaria de ler, pelas suas mãos, pelos seus olhos, a cidade. Pelos seus gestos ternos, a cidade e o mundo, tenho certeza, ganhariam mais sentidos.

Segui sem Gabriela, contudo. Ela ficou em um ponto longínquo, mas tão presente, do passado. Em algum momento da juventude os livros tornam-se menos atraentes do que a carne da vida – eu queria aprender é nos becos e bistrôs lotados de Paris.

Havia uma francesa linda, mas terrivelmente fria. Grosseira. Recebeu-me com um exame de alto a baixo e decretou em menos de três segundos: Non mais tu te crois où?

Não entendi. Não me preocupei em entender a hermenêutica da situação. O desprezo, empírico e pragmático, era absoluto. Retirei-me encolhido como um vira-lata. Ao fundo a Torre Eiffel brilhava tão intensamente sobre nós. A força de uma ideia erguida em 10 mil toneladas de ferro.

E o que era a vida, até então? Toneladas de ferro ou de luz? Uma ideia triunfal ou a emoção que me marejava o rosto inteiro, como nos naufrágios da aula de literatura?

Passado o Réveillon, provoco. Gabriela está morta, Paris, distante na memória, e a jovem intelectual francesa jamais me daria bola. O que a vida me ensinou? E o que ensinou a você? A mim ensinou a aceitar minhas imperfeições. Aceitar a derrota – e que ela não difere muito da vitória, afinal. A me desapegar da culpa (tão difícil, isso). A administrar expectativas, a me preocupar menos, a ser mais seletivo. E que não existe certo nem errado, mas apenas atos e consequências.

Ensinou-me que há tempo para amar, sempre. Que é OK ser ridículo. Ensinou-me a me entregar enquanto de fato há tempo; enquanto alguém ainda se importa.

Ensinou que o corpo precisa de atenção. [E que é muito, muito difícil tocar piano.]

A ser paciente ensinou, mas sem jamais esperar demais e sem procrastinar. A hora de abusar e a hora de moderar. Curtir cheiro de chuva e de sexo, calor de mãos e trocas de olhares. Movimentos lentos.

Afastar-me das encrencas vãs ou da vaidade, entregando-me, sem medo, a causas perdidas.

Treinou-me para brigar.

E para apanhar, no mais das vezes, me preparou.

Tudo aprendi apanhando. A apanhar, aprendi apanhando.

A vida ensina, dizia a mãe. É verdade. Mas, ao contrário de dona Gabriela, é uma professora cruel.