»Desde criança, um dos meus programas favoritos no mundo é ir ao cinema. Não sei bem quando e onde o hábito começou, mas o primeiro longa de que me lembro mais claramente é o “Batman” (1989), do Tim Burton. Eu tinha apenas nove anos e, dada a minha memória precária, surpreendo-me comigo mesmo ao lembrar com riqueza de detalhes da sala – o vermelho veludo das poltronas, o cheiro adocicado de mofo e perfume barato, o silêncio pesando sobre a escuridão total.

Foram duas horas de puro entretenimento. Entretenimento, apenas? Será? Então por que lembro tão bem daquelas cenas, enquanto esqueço outras distrações igualmente felizes da época?

Pois. É que o cinema é mais que cinema. Um filme é mais que um filme, mais do que um objeto de distração do cotidiano, como um cubo mágico ou uma folha de colorir. O filme é uma experiência, educativa no melhor sentido, existencial quando em sua melhor forma.

O bom cinema ensina coisas. “Ensina” não no sentido escolástico mais raso, mas no sentido de uma provocação, uma inquietação. Como fazia o teatro à moda grega, o cinema ensina a viver melhor. Ensina a olhar, ao resgatar a beleza do cotidiano embolorado. Um beijo no dia a dia é só um beijo, assim como um almoço é só um almoço e uma árvore que farfalha sob o vento não passa disso. No cinema, contudo, quando faces de oito metros de altura se tocam, em um certo ângulo, sob uma certa luz, sob certa melodia, o beijo se enche de magia. Lembramos subitamente da beleza do beijar. É emocionante.

O cinema também ensina que todos os nossos atos têm consequências. No dia a dia, a distância entre uma economia desnecessária nos pneus do carro e uma tragédia inesperada nos faz esquecer como essas coisas se relacionam. Passam invisíveis por nós as consequências de uma fechada no trânsito, um revirar de olhos, um dar de ombros. Tudo isso potencialmente catastrófico, em algum plano, para outro ser humano. O cinema amplia e escancara nossa conexão com tudo e todos. Mostra, a quem quiser ver, em imagens cristalinas, que se o senhor X tivesse saído de casa dez minutos mais cedo, jamais conheceria o amor de sua vida.

Ao condensar a experiência humana em poucas horas – às vezes, segundos –, o cinema também nos lembra, gentilmente,  que a vida é curta. Passa num estalo de línguas, num atirar de ossos para o alto, num piscar de palmilhas. Passa.

A vida é curta demais para não irmos ao cinema.«

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