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arte: loro verz

» Então duas fobias terríveis se encontram numa só tragédia: a morte de um filho e a queda de uma aeronave.

Esses dois medos, os mais terríveis a me assombrar, adquiri já adulto. O medo irracional de voar, que sempre advoguei em termos estritamente lógicos, curiosamente foi se adensando à medida em que voava mais e mais. Enquanto eram esparsas, as viagens eram emocionantes, apenas. Uma, no máximo duas vezes por ano, entrava em um avião. Me divertia com a maquiagem exagerada das comissárias, procurava surpresas nos bolsões das poltronas, curtia a paisagem da janela – especialmente durante pousos e decolagens.

Olhava às vezes para o lado para me entreter com a cara de terror daqueles que não entendiam, não criam ou não confiavam na máquina de voar. Olhava a mim mesmo, dez anos depois. 

Não sei se por tragédia, por destino, por pilhéria, mas: a cara de terror finalmente tornou-se minha. No banco ao lado da janela, meninote que mal e mal encostava os pés no chão, rindo-me de tudo, sem saber contemplava meu próprio terror.

Todos os tempos coexistem. Estou agora mesmo vivendo o meu futuro, a terrível angústia de escrever, o cachorro arfando sobre o meu abdômen, a televisão ligada, os barulhos da casa que sem que me dê conta dão ritmo à minha poesia.

O medo de perder um filho era outro desses pesadelos abstratos e sem substância, dos quais passamos os dias rindo e esquecendo. Porém é também daqueles que inevitavelmente batem à porta; basta esperar.

Todos os tempos coexistem, e vivo a cada instante a plenitude do passado, que assim me soletrou.  Só atinei devidamente para a loucura feroz da perda de um filho, ainda que de modo projetivo e vagamente aproximado, depois que me tornei pai – o que se deu bem cedo, aos 23 anos. Imediatamente qualquer possibilidade de vento selvagem, qualquer buraco de rua, qualquer desleixo me amedrontavam.

Nem sempre é preciso perder para aprender a valorizar. As coisas grandes, as coisas tão grandes que nem coisas são, mas espantos, epifanias, aquele olhar que separa mares e estrelas e aponta novos caminhos, tudo isso a gente sabe de imediato o quanto vale. Quão único, quão raro.

Me entristece, talvez por isso, talvez pela conjunção de dois temores primordiais, a exploração dessas tragédias como catarse de outros horrores.

Parece um bom argumento, certamente tem imenso apelo, comparar morte de filho de governador a mortes de crianças e jovens pobres que não recebem nenhum destaque na imprensa. Mas não é. Há infindas maneiras de reclamar um direito ou de apontar uma injustiça, e debochar ou oportunizar a morte de alguém não é nem de longe a mais digna.

Explorar o medo, o luto, a miséria, para paradoxalmente combater essa mesma miséria existencial, não nos engrandece – pelo contrário, os abismos aprofunda.  A morte iguala a todos, embora a vida seja tão diferente entre nós. Todas as mortes, especialmente as que desafiam o curso da natureza e antepõem filhos aos pais, são trágicas, terrivelmente, trágicas. Não comportam proselitismo nem piada.

É a vida que deve ser questionada. A vida que permite voos de helicóptero ao mesmo tempo em que propala munição no horizonte mais pobre.

Helicópteros e balas perdidas devem ser discutidos enquanto estão no ar, portanto – ou antes disso, desde o gesto que os antecede em vida.

Depois que destroçam tudo, sonhos, esperanças, a batalha já está perdida. «

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