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arte: loro verz

 

»Cheguei àquela altura do campeonato em que todos os amigos se aproximam dos 40 anos – e, claro, eu mesmo. Parecem tensos. Nos almoços – que antes eram noitadas, depois, happy hours, depois, churrascos de domingo –, o passado monopoliza risadas. Quando falam de hoje, quando falam de amanhã, preocupam-se com cabelos escasseando, contas se multiplicando, os filhos emburrados, as aventuras que não encararam, os shows que perderam.

À beira dos 40 não são velhos, sabem disso. Mas sabem também que estão quase lá. O corpo dá seus sinais: hérnia, indisposição, insônia. E, de início discretamente, a impaciência com bobagens – o maior pecado neste mundo movido a bobagens.

Os quase-quarenta são a pior fase da vida. A felicidade é uma curva em U. Os amigos olharam curiosos. Lembrei de uma pesquisa que concluía, basicamente, que os quase-quarentões eram os mais infelizes dos entrevistados. Explicava-se: aos vinte o mundo inteiro se abre diante de nós, cheio de possibilidades, e tudo parece uma questão de escolha. Aos quarenta, as janelas parecem estar todas fechadas, e os caminhos, interditados. O que não foi, não será. A vida real desaba sobre as cabeças dos aventureiros incautos: é conta, é família, é chefe, é trampo.

O prazo para entregar a declaração de imposto de renda vence no dia 28. Se você sabe disso, é uma pessoa algo infeliz. Meus amigos sabem, de cor, e sabem quanto devem pagar pela simplificada e quanto pela completa. Um, desempregado, não vai pagar nada. É o dia dele ir à forra – nos outros 364, fica cabisbaixo.

Tudo parece desenhado e determinado rumo a um futuro não escolhido.

Mas então a boa notícia: cara, a felicidade é uma curva em U. Assim como há um pico aos vinte, há outro aos cinquenta (alguns estudos falam em sessenta). Outra felicidade quando mais uma vez ligamos o foda-se: se antes a liberdade vinha das infinitas possibilidades, agora, a liberdade vem de uma infinita tranquilidade: não há mais o que provar a ninguém. Fiz o que poderia fazer para criar os filhos ou não criá-los, para ser o marido que era possível ser, o amante possível, o funcionário possível, o filho possível, o amigo possível. E tudo bem.

Consolo os amigos dos quase-quarenta. São uns dez anos estranhos, mas, depois, vem a trégua. Aos cinquenta, talvez até com um sorriso, virá a constatação tranquila: apesar de todas as minhas merdas, ninguém morreu. Apesar de todas as minhas merdas, estou aqui. Nada era tão importante quanto parecia – e tudo o que era importante parecia bobagem.

Ainda há um bocado de vida a viver. E não vou mais deixar ninguém me encher o saco.«

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