arte: loro verz

»Em tempos bicudos, as igrejas lotam. Percebi neste domingo. Por igreja, claro, entendo mais do que a Santa Igreja. Estou falando de todos aqueles locais em que as pessoas se encontram e reúnem para meditar sobre a vida e para louvar algo que está além do alcance delas, algo abstrato e que dependa puramente de nossa fé para se manter vivo. Estou falando, então, das igrejas e templos religiosos, mas também dos bares hedonistas, das lotéricas em que se anuncia a Mega Sena acumulada, dos coletivos de defesa dos direitos humanos e, claro, dos congressos de autoajuda.

Enquanto o Brasil segue para o desconhecido previsível – merda, memes e miséria –, os crentes fazem promessas. Eu mesmo já fiz promessas, quando mais novo. Promessa para passar no vestibular, para ganhar uma bolsa de estudos fora do país, para conquistar um coração adolescente… A sistemática é bem conhecida: na modalidade clássico-religiosa da promessa, a gente se compromete a algo penoso de caráter simbólico, tipo ir à pé até Aparecida, lavar as escadas da igreja de Nosso Senhor do Bonfim, recitar cem, quinhentas ou mil vezes o Pai Nosso.

Nos outros templos, as promessas são outras. O boêmio pode ficar sem beber por um ano, o apostador promete doar a maior parte da fortuna, os engajados se privam de fazer comentários no Facebook. “Se me atender, Senhor, não posto uma só lição de moral edificante na página de ninguém por um mês!” Gulosos deixam de comer, devassos deixam de transar, marombeiros deixam de malhar e patricinhas deixam de comprar.

A lógica é sempre a mesma: eu faço um sacrifício agora em nome de uma recompensa futura. Mostro assim meu compromisso e boa fé. Em alguns casos, paga-se adiantadamente. Em outros, paga-se depois de realizado o milagre. O importante é ser fiel ao compromisso: ajoelhou, tem de rezar.

Mas o que mais me intriga nessa história toda não é a crença no sobrenatural, e sim a crença de que a entidade mesma que é a capaz de realizar nossos pedidos tem algum interesse no nosso jejum ou celibato, ou, sei lá, nos trezentos pulinhos que vamos dar se encontrarmos a carteira.

Eu não pensava nisso quando era menino, é claro, mas hoje penso. Quer dizer, sendo de família católica, estou bem familiarizado com os preceitos da religião. Mas, como ser humano, apenas humano, às vezes me espanto ao pensar num deus que sorri e diz: bem, já que você vai ficar seis meses sem sexo, acho que posso lhe conceder esse vestibularzinho aí.

É engraçado. Sem ofensas, mas é engraçado. Sou mais simpático à ideia de uma entidade generosa, todo-amorosa, que diante de um mundo tão fodido quanto o nosso não tem muita curiosidade em ver alguém passando fome voluntariamente, ou se privando de pipoca, ou se forçando a marchar trezentos quilômetros para agradá-la. Não precisa, oras. Todos os dias, todos os minutos, Ele vê bilhões de pessoas sofrendo. Que uma se entregue voluntariamente à causa do sofrimento apenas para satisfazer um desejo é apenas bizarro.

Ainda assim, não parei de fazer promessas. Apenas ajustei o foco a esse deus amoroso e sedento de amor. Agora me comprometo a prazeres, aos mais elevados prazeres que possa pensar, e pisco o olho direito. Digo assim: Senhor, meu Senhor, camarada, prometo que, se eu passar nessa prova, vou ler Crime e Castigo de cabo a rabo, fazendo anotações nos rodapés das páginas. Prometo ir mais ao teatro, sentar na primeira fileira e não tremer ante a ameaça de “interatividade artística”. Senhor, ó Senhor, quebra essa que escuto toda a Nona Sinfonia de Beethoven na Sala São Paulo uma vez por ano pelos próximos dez anos – conquanto existam ainda São Paulo, orquestra e Beethoven. Vou me dedicar a aprender francês e alemão! Prometo amar mais, perdoar mais, cozinhar melhor, caprichar no risoto de sexta à noite sem me importar com carboidratos.

Assim não vale, os penitentes se queixam. Deixo que se queixem. Entre mim e meu Deus ninguém se mete. Eu faço uma promessa marota e pisco para o alto – apesar de todo o sofrimento, prometo ainda gozar.

Tenho certeza que Ele pisca de volta.«

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