Fotografar, gravar ou transmitir momentos da nossa vida virou um ato banal. A lente do celular já é uma extensão do nosso olhar, o app que torna público tudo o que vemos e ouvimos.

Mas há momentos tão fugazes que escapam até ao registro do aplicativo mais instantâneo.

Esse final de semana, meu marido e eu estávamos sentados num banco de praça com nossos dois cachorros, sem fazer nada em especial, quando uma senhora muito velhinha, bem pequenininha e toda arrumada, parou para interagir com minha cachorrinha. Na verdade ela queria interagir com algum ser humano e o pet foi a porta de entrada.

A senhorinha (que depois deu seu nome e sobrenome, idade,telefone celular) se apresentou para minha cachorra falando naquela linguagem tatibitate que alguns adultos usam com crianças. De um jeito fofo ela disse que `ela cantola de ópela, professola de flancês e plofessola de canto’. Naquele instante eu já sabia que ela não sairia dali sem cantar. Meu marido convidou-a para sentar em nosso banco. Ela aceitou. E falou,  conversou, viu um vídeo que mostrei pra ela e, conversamos um pouco mais, e finalmente, ela cantou um trecho de La Traviata. Aplaudimos. Uma pessoa no banco ao lado aplaudiu também. Levantamos, nos despedimos e encerramos o encontro.

Meu marido ficou inconformado porque não gravou isso em vídeo. “Pra quê?”, perguntei. “Ué, pra botar no YouTube!”. Insisti na pergunta: “Mas você não viveu o momento, não achou legal? Não é suficiente viver o momento? Pra que gravar tudo e subir pro YouTube?”. “Porque se eu subisse esse video da velhinha cantando La Traviata na praça eu ia ter muitos views!”.

Passei o resto do domingo pensando sobre isso. Em que momento o ‘eu ia ter muitos views’ com esse vídeo passou mais importante do que viver este momento? Claro que é maravilhoso compartilhar o momento, claro que se alguém tivesse gravado o momento que vivemos em vídeo, ou se ficasse registrado numa câmera de segurança do parque, outras pessoas poderiam curtir a música. Poderia ser legal pra todo mundo ampliar esse instante. Mas tem a coisa do ‘eu ia conseguir ter muitos views’, que hoje leva muitos adolescentes a atingirem extremos de loucura diante das câmeras, alguns com consequências fatais.

Não sou dona da verdade, sou só inquilina mesmo, mas acho que este é um bom momento pra gente parar e pensar se é mesmo preciso fotografar tudo, registrar tudo, publicar tudo, a ponto de não suportarmos apenas viver o momento, como se a experiência vivida na realidade, sentida e observada, não fosse mais suficiente.

Compartilhar é maravilhoso, uma bênção. Mas, às vezes, a gente pode só ver o show, ou olhar a paisagem, o comer a sobremesa e apenas viver o momento.