Querido Leitor, Querida Leitora,

Quantas horas por dia você passa diante de alguma tela? Eu me fiz essa pergunta e quero compartilhar a resposta surpreendente que encontrei num site brasileiro de tecnologia:

“Segundo dados recolhidos pela analista Mary Meeker no relatório Milward Brown AdReaction de 2014, o brasileiro passa quase oito horas por dia diante de alguma tela . São 66 minutos olhando o tablet, 113 minutos assistindo TV, 146 minutos na frente do laptop,149 minutos interagindo com o smartphone.”

Ou seja, se a cada dia de vinte e quatro horas nós dormimos oito e passamos mais oito olhando telas, restam apenas outras oito horas para olhar todas as outras coisas do mundo, como livros, jornais, revistas, paisagens na janelas, fotos, quadros, monumentos, obstáculos, animais, plantas, espelhos, lousas, cartazes, placas de trânsito, de rua, informações urbanas, embalagens, rótulos, caras de pessoas conhecidas e anônimas e tudo o que de há no mundo para ser visto. E ainda temos que incluir nesse período o tempo que passamos de olhos fechados como nos cochilos, meditações, devaneios, sonhos diurnos e também os momentos de inspeção e higiene pessoal que nos fazem mirar os azulejos ou os vazios do infinito.

E onde eu quero chegar com isso? Numa sugestão de oftalmologista ou exercícios para globo ocular? Não. Eu queria pensar junto com você, querido leitor, querida leitora, em como esse um terço de cada dia durante o qual pousamos nossos olhos sobre as telas pode nos tornar exatamente como elas, cheias de conteúdo, porém planas.

Dói dizer isso, mas talvez esse excesso de convívio com a bidimensionalidade esteja esmagando nossa massa encefácila como um pau de macarrão que abre uma pizza.

Penso muito nisso, nos raros momentos em que posso ficar sem olhar para uma tela, seja fazendo tricô ou praticando corrida de rua. Aliás, eu comecei a correr para fugir das telas, inclusive daquela que fica na esteira da academia. E foi numa dessas corridas que me ocorreu que essa ‘polarização’ que nos assola possa ser já um corolário dessa vida que, afinal, é binária. Zero ou um. Sim ou não. Direita, esquerda. Aceso, apagado. Vivo, morto.

Independente de crença ou posição política, tenho certeza que queremos uma vida mais ampla, multidimensional, arejada, que tenha espaço também para outros sentidos. Para sermos humanos precisamos ter algo essencial que a tela nos rouba, a perspectiva, algo que só se consegue jogando os olhos em espaços abertos que ofereçam horizontes.

Sem horizonte, sem perspectiva, perdemos o senso de proporção. Julgamos mal, como os aborígenes que vivem eternamente fechados em florestas e que, sem jamais terem visto o horizonte, acreditam que a caça distante tem o tamanho de uma unha e, portanto, não serve para o almoço. Estamos assim, sem capacidade de dimensionar as coisas, ora subestimando, ora exagerando, cheios de pressa e abarrotados de ansiedade. De tanto viver nessas superfícies eletrônicas, estamos ficando exatamente como as telas: iluminadas, mas muito, muito chatas.