Hoje eu estava vendo os Stories da Luciana Gimenez e vi uma foto com a seguinte frase:

Espelho, espelho meu, por que as pessoas cuidam da minha vida mais do que eu?

A pergunta é muito válida em tempos de perfis abertos e vidas escancaradas. Todos temos direito de ser quem somos, como somos, de mudar, de tentar, de viver, sem pagar o preço do julgamento e da condenação. Afinal, qual o crime que cometemos? O de termos nascido como somos, de termos feitos nossas escolhas? A vida é uma bênção que cada um recebe, por que deveríamos ter que justificá-la para a socieadade?

Esse pensamento de tantas pessoas e, especialmente, de tantas mulheres hoje, certamente faz parte da proposta de Netta, a israelense que ganhou o Eurovision 2018, premiação que gerou muito ‘nariz torcido’. As apostas miravam alguém mais ‘tradicional’, mais certinho, mais… padrão.

Pois Netta foi lá, o público foi lá, os jurados foram lá e aprovaram esse ‘lugar’ de fala que empodera todos os que não se enquadram nos padrões estéticos, nos padrões de comportamento, nos padrões de uma sociedade que quer ser a média, a mediocridade, em vez de ser linda e diversa.

Até o maravilhoso cantor Salvador Sobral ficou indignado por ela ter vencido, ele achou a música horrível.

Eu entendo que é um concurso de música e que voz, melodia, letra, interpretação sejam os quesitos básicos a serem julgados. Mas o Eurovision é também um dos maiores eventos do mundo, como a entrega do Oscar e, por isso mesmo, também precisam servir de espaço de voz para causas essenciais. E a diversidade, a igualdade, a liberdade são causas mais do que urgentes. Está acontecendo em todo lugar, de concursos de música a reality shows. A luta, a grande luta pela liberdade ocupa tudo mesmo.

Na entrevista de Netta para a BBC, que tem pouco mais de 1 minuto, fiquei emocionada e chorei. Em poucas frases ela disse coisas que já mereceriam todos os prêmios.

A letra da canção pop que ela defendeu foi baseada no movimento #MeToo. A canção é dedicada a todas as pessoas que lutam para serem elas mesmas, diz Netta, num momento incrível em que mulheres estão buscando suas vozes.

Netta conta que sempre foi cantora de bandas de casamento e que, por ser uma mulher grande, gorda, diferente, ouviu muitas vezes ao telefone, as vozes das noivas perguntando se a banda não podia trocar a cantora, se não tinha outra mais bonita, com melhor aparência.

Netta diz que sabe que é uma pessoa diferente e que o diferente em geral não é aceito. Por isso, as pessoas sempre diziam que ela deveria mudar. Usar roupas escuras em vez de coloridas. Abaixar a bainha da saia curta. Emagrecer.
E que, no começo, ela seguiu esses conselhos para se encaixar.
E descobriu-se totalmente infeliz.
E então ela faz a pergunta que traduzi livremente no título desse post:

-“Só estamos aqui… por um minuto. Por que estamos nos ocupando tanto em ser… infeliz? Eu sou uma pop star engraçada, é isso que eu sou. E as pessoas parecem ter dificuldade em aceitar isso.”

Verdade, Netta, querida. As pessoas têm grande dificuldade em aceitar as coisas que fogem das regras que elas seguem, principalmente porque elas não tem energia vital para se livrarem dessas regras. Seguem porque têm medo de serem livres. Porque não sabem como é gostoso ser quem a gente é, descobrir quem somos de fato.

Você sabe quem é. Você faz o que quer, você existe, você é.
E todos os que também são, votaram em sua energia, cantando toda colorida, do seu jeito, com seu time, dançando como galinha, fazendo pó-pó-pop, cheia de luz e glória. E por isso você venceu.

Vencemos todos.
Viva a diversidade!
Viva o direito de ser feliz!