Quase não uso o Facebook, mas vez ou outra tenho que fazer alguma pesquisa na ferramenta. Hoje foi um desses raros momentos. Fui em busca de informações sobre um rapper inglês de 20 anos, Kenny Vulcan, que desapareceu no Rio de Janeiro no dia 13 de abril, depois de sair de uma gravação num estúdio na Tijuca. Sua namorada, seus amigos e familiares, todos estão procurando por ele, pedindo ajuda, já que não conseguem fazer nenhum tipo de contato com ele. Seus celulares não respondem, suas redes sociais foram misteriosamente deletadas.

Não é preciso conhecer o rapaz, nem saber de seu trabalho, para ficar preocupada e torcer para que ele seja encontrado bem, com vida. É apenas uma questão de humanidade. O fato dele ter desaparecido no Rio de Janeiro, de estar morando em nosso país, de ter namorada e amigos brasileiros, nos aproxima ainda mais. Mas mesmo que essa notícia fosse em qualquer outro país, qualquer um ficaria apreensivo e torceria para que ele fosse encontrado. É um jovem de 20 anos. É um ser humano. É uma vida.

E, no entanto, ao ler os comentários num post oficial do Estadão no Facebook, fiquei chocada. É difícil compreender o que se passa na mente de pessoas que entram na notícia do desaparecimento de um jovem para julgar, condenar, ofender, zombar. O que acontece com essas pessoas? Elas entram no Facebook para isso? Ao lerem uma notícia triste, elas fazem piadas?

Antigamente, logo no começo das redes sociais, chamávamos essas pessoas de ‘trolls’, como se fossem criaturas assustadoras do nosso imaginário. Os trolls eram anônimos e todos nós acreditávamos que só expunham sua ‘crueldade’ e insensibilidade para com as pessoa porque se escondiam nesse anonimato.

Mas os comentários cruéis que vemos hoje, em todo lugar, não são nem de ‘figuras mitológicas’ e nem anônimos. São pessoas comuns, com nome, endereço, família. Pessoas com cara, com páginas no Facebook.

No post do Estadão que fala do desaparecimento de Kenny Vulcan, há textos horrorosos de leitores, coisas que ferem a dignidade humana.

Inconformada, cliquei nos nomes de alguns comentaristas e visitei suas páginas. Não são ‘monstros verdes e gosmentos, são cidadão comuns. Que postam fotos de família, comentam, dão likes. E, no entanto, essas mesmas pessoas, diante da dor alheia, do sofrimento do outro, não sentem a menor empatia. Comentam as piores coisas sem nenhuma cerimônia. Não têm vergonha da sua crueldade.

Talvez não tenham nenhuma consciência, talvez não consigam sentir, compreender que há um ser humano por trás daquela notícia.
Talvez entendam e apenas não se importem.

Não sei se o facebook, com uma amostra tão grande de seres humanos pode ser considerado um espelho da nossa sociedade. Mas a julgar pelos comentários crueis em tantas notícias, em tantos posts, se assim for, esse espelho está mostrando a cara da nossa sociedade. E essa cara é realmente assustadora, mais do que a de qualquer troll que a imaginação humana um dia criou.