A ideia é genial: inverter um ponto de exclamação para ter um novo sinal gráfico, o ponto de indignação. Encontrei a proposta num verbete da Wikipedia, feita por um usuário de nome Sakurambo, mas serve perfeitamente para esse momento do Brasil quando tentamos expressar nossa indignação com pontos de exclamação cada vez mais frequentes. Atire o primeiro celular quem nunca recebeu ou enviou mensagens dizendo ‘Isso é um absurdo!!!!!!!!’ para amigos e parentes.

Infelizmente, pontos de exclamação não vão mudar o mundo, nem virando a exclamação de cabeça pra baixo pra ficar alinhada com o jeito que as coisas estão. Pior: a indignação que não gera ação com bom senso, que fica só nas redes sociais, além de não melhorar nada, vicia.

Sim, colega, estamos viciados em sentir e compartilhar indignações de todo tipo, das mais legítimas, como a indignação que cobriu o sol do Brasil com um 4 x 3 que permitiu que Temer continue pendurado na presidência, até as mais questionáveis, como o fato de uma convidada de um programa de TV não querer comer abóbora.

Ficar indignado  é essencial, quando se trata de coisas absurdas e criminosas, como racismo, homofobia, machismo, violência pois é o primeiro passo para mudar a sociedade para que seja mais justa e igualitária. É uma excelente ferramenta. A gente fica chocado com um fato, aponta pra ele, discute com a sociedade, constata que isso não é aceitável e ai partimos para garantir que ele seja criminalizado. Da indignação nasceram poderosas leis como a Lei Maria da Penha.

Mas hoje estamos viciados em ficar indignados com tudo! (Olha o ponto de indignação disfarçado aqui) Mais que isso, a gente viciou em ficar indignado! Mal acorda e já corre pras redes sociais. Pra ver as boas novas do dia? Não! Pra ver a indignação do dia! Com que nos indignaremos hoje? Com o novo clip da Karol Concá? Ou com o da Mallu Magalhães? Com a frase da Pugliesi no Instagram? Com um artista da TV?

O que me assusta (eu ia dizer ‘me deixa indignada’, olha o vicio) é que diante dos erros alheios não temos a menor benevolência. Não queremos nem corrigir  os erros, ou ensinar um caminho melhor, queremos só ficar no julgamento raso, no linchamento online que nos dá a falsa sensação de poder e partir pra próxima indignação.

Os alunos erraram muito ao usarem fantasias de profissões de base na famigerada festa #senadadercerto, erraram feio. Foi horrível. Mas dessa indignação não poderia nascer uma lição de cidadania? Um ensinamento para todos os envolvidos? Não caberia uma orientação, já que faltou justamente alguém para orientar esses alunos ? Ou só vamos achincalhar os jovens envolvidos (que realmente erraram), linchar a escola, amaldiçoar as famílias e seguir em frente para a indignação seguinte sem conscientizar ninguém? Porque foi isso que a mídia fez. Como a matéria deu muitos cliques, logo encontraram outra escola com dois alunos vestidos com roupas do horroroso grupo racista da KKK. Errados de novo.Mas não seria o caso de conscientizar todos esses alunos e realinhá-los, reorientá-los para que virem cidadãos mais conscientes, tolerantes e civilizados? Parece que pro portal importam os cliques, pra nós importa a prática indignação.

Há alguns anos, uma garota num estádio teve uma atitude racista horrorosa. Soubemos disso pela leitura labial de uma cena muda que uma câmera captou num estádio. Imagino que ela tenha aprendido uma boa lição depois que o video viralizou com o inaceitável xingamento. Racismo é crime e quem comete crime precisa ser punido.  Mas daí a apoiar quem foi lá e queimou a casa da família da garota é um longo caminho, não? A indignação deveria nos levar para o rumo da legalidade, mas nunca da barbárie. Tenho dificuldade de entender que tentar queimar uma família viva seja uma boa forma de ensinar alguma coisa pra alguém, mesmo quando ela comete um crime.

Acho que estamos todos confundindo justiça com vingança, pulando da indignação para a retaliação, sem passar pelo caminho do bom senso com escala no ensinamento. E, às vezes, sem passar sequer pela legitimidade da lei.

Não sei você, mas eu não quero fazer da indignação um crack, nem transformar a rede numa Cracolândia. Não quero viver o tempo todo atrás da próxima pedra, nem pra consumir, nem pra atirar.

Lutar, sim, sentir indignação diante da injustiça, sempre; mas usando o chapéu da sabedoria, vestindo o manto da compaixão, as sandálias da humildade e tendo nas mãos  as armas da legalidade. Ensinar quem não sabe, conscientizar os inconscientes, punir os criminosos.
Isso sim eu acho digno.