Unfollow é libertador”, diz a máxima das redes sociais. Deixar de seguir alguém que nos faz mal traz o alívio de tirar um sapato que aperta, mesmo sabendo que quando detectado o unfollow terá um preço social, como o começo de uma inimizade.

“Isso é inveja do sucesso do sapato!”, dirão alguns. “A culpa é do calo!”, argumentam. Discordo. O sapato a gente escolhe para se adaptar aos nossos pés, não o inverso. Se a pessoa não traz conforto e alegria pra nossa vida, por que seguir pra sofrer?

Recentemente dei um ‘mute’ e um ‘unfollow’ que me trouxeram grande alívio, mas trouxeram também a pergunta:

– O que é que está gerando tanto incômodo em mim?

Não posso responder por todos, mas no meu caso, são dois extremos que me fazem mal: os que reclamam de tudo e os que se auto-promovem por tudo. Os ranzinzas e os  deslumbrados. Os ranzinzas eu até acho engraçado, mas me incomodam mesmo os deslumbrados.

No começo era OK, simpático até. A pessoa falava de coisas sobre o mundo, as redes, tinha observações divertidas. De repente, o perfil mudou e começou a a falar só de si mesmo. Mudança de vida, sabe, dá pra entender. Começou com novo trabalho, novos amigos, novas tarefas. Bacana. Depois foram os bens materiais. A casa nova, o carro novo, a decoração, as roupas, os eletrônicos, as viagens. Em seguida as coisas mais pessoais. A beleza do cabelo, do corpo, a facilidade para emagrecer, para adquirir músculos, a perfeição física. E, claro, o charme irresistível para atrair o sexo oposto, especialmente contando com sua inteligência e perspicácia. Até aí, beleza. Dá pra entender alguém que melhora de vida e fica embevecida com suas próprias conquistas. Fiquei assim quando terminei a meia maratona do Rio de Janeiro, só pensava em compartilhar minha alegria.

O incômodo começou quando surgiu a ostentação. Ela não tinha apenas um novo emprego, ela tinha o melhor emprego do mundo que todos sonham em ter. Sua casa não era uma conquista, mas a melhor casa do mundo, decorada com um bom gosto que só ela tem. O carro dela não era um meio de transporte, mas um importado de uma marca que todos desejam e que ela conquistou. E, claro, ela passou a explicar que é naturalmente linda, mesmo sem fazer força, aquele tipo de pessoa que ganha massa muscular e perde gordura apenas respirando. Ou seja, a pessoa que eu seguia deixou de ser uma pessoa. Um ser humano com falhas, que faz merda e que se iguala a todos. Ela era uma mulher maravilha, esfregando diariamente na cada de todo mundo que ninguém se igualava a ela. Chato.

Eu sei que o ideal de ‘Mulher Maravilha’ é uma busca para muitas, o sucesso do filme que o diga. Todo mundo quer ter sucesso e poderes incríveis. Mas, que eu me lembre, os super-heróis ajudam os outros não a si mesmos. Alguns nem revelam sua identidade. A ideia de superioridade hoje é desumana, injusta. Estamos vivendo uma era de ajuda mútua, de compartilhar aprendizados e conhecimento, de redistribuir renda, de questionar privilégios. Queremos dar voz para quem não tem,  construir uma sociedade mais justa e igualitária para todos. Não queremos mais viver a loucura de competir e acreditar que algumas pessoas ‘merecem’ mais que outras. A exibição constante, a auto-promoção,  é uma forma de perpetuar esse conceito de ‘hierarquia’. Se ‘eu’ tenho mais, posso mais, faço mais sucesso então ‘eu sou melhor que você’. Isso é desagradável e obsoleto.

Eu parei de seguir uma pessoa, e não é foi por causa do seu sucesso, mas da sua ostentação.
De vez em quando dou uma espiadinha nas suas publicações. Quando ela sair  do planeta Eu, dos anéis do Deslumbramento e voltar a ser apenas uma pessoa bacana com altos e baixos na vida, vou seguí-la novamente.
Porque como sou humana, já passei por isso também, já fui deslumbrada e, acredite, é momento vergonha, daqueles que a gente luta para não repetir na vida.
Pra essa amiga que se perdeu em si mesma, só posso dar um recado: melhore, mulher.