Outro dia, voltando de Águas de São Pedro com meu marido, acompanhamos uma entrevista marcante no rádio do carro. A especialista que conversava com a locutora tinha um terrível vício de linguagem. A cada três segundos ela dizia ‘né?’. Não era algo normal, um ‘né?’ que finaliza uma frase, eram nés em todo lugar, depois de qualquer substantivo, né, ou adjetivo, né, uma coisa, né, muito chata, né, pelo menos, né, pra quem estava ouvindo.

Não tenho dúvida que é algum problema que ela não consegue controlar, mas será que ela tem consciência de quem tem esse problema? Se ela ouvir a gravação do programa, ela vai ouvir os nés e notar que eles são incontáveis? Meu marido disse que acha que não, que ela não vai perceber.

Lembrei então de outro fato curioso sobre não ter percepção de si mesmo. Um amigo se viu numa foto de corpo inteiro, ao lado de uma pessoa magra e se achou extremamento gordo. Ficou chocadíssimo. Bem, ele mesmo já me disse que pesa cento e dez quilos e não é muito alto, ou seja, eu imaginei que ele tivesse consciência de que magro ele não é.

De novo a pergunta: mas ele sabe que pesa cento e dez quilos, por que o choque ao ver a foto de corpo inteiro?

Porque nossa percepção é imperfeita. Porque tem dias que a gente se olha no espelho e se acha a coisa mais horrorosa do universo e, em outros dias, acha que é uma gracinha. Porque não podemos nos ver exceto na imagem invertida do espelho ou nas fotos e selfies que tiramos. Porque somos todos pessoas imperfeitas. Ou, em resumo, porque a gente não se enxerga.

Tenho certeza disso, porque já trabalhei com pessoas absurdamente chatas, repetitivas, que contam sempre as mesmas piadas como o Tio do Pavê e elas…não percebem que são chatas. Aliás, não se acham chatas, acreditam que são alegres. Assim como pessoas que falam alto, gritam, incomodam, acham apenas que são energéticas e cheias de vontade de viver. Não têm a menor noção de que estão incomodando. E se alguém reclamar, ficam ofendidíssimas.

Como isso acontece comigo, com você, com todo mundo, o que podemos fazer é nos ajudarmos mutuamente. Contar como amigos que não apenas avisam quando temos alface no dente, mas quando estamos sendo inconvenientes, quando perdemos um pouco a noção das coisas. Porque não nos enxergamos, precisamos do olhar das pessoas a nossa volta para nos dar feedback. Não de forma critica, mas com tato. Se todo mundo avisar todo mundo sobre o que cada um é e faz, sem censura, sem julgamento, sem raiva, sem agressividade, talvez a gente consiga não apenas se ver, mas se aceitar.

Porque, se a gente se aceitar, certamente vai ficar mais fácil de aceitar o outro. Né?