portaforarape

Quem olha esse foto pode pensar “Nossa! Mas que cara horrorosa dessa mulher!”. Com razão, estou com uma expressão  horrível mesmo. É a minha cara, mas num momento específico. A cara está numa cena e a cena, num contexto. Depois de experimentar um rapé muito doido que Richard Rasmussen ofertou para Fábio Porchat e eu, no primeiro episódio da primeira temporada do Porta Afora (PA S01E01), fiquei totalmente desorientada, rindo e chorando ao mesmo tempo. Nesse exato instantâneo eu estava descrevendo os efeitos do rapé indígena no meu corpo e na minha cabeça, enquanto Fábio ria de mim.

Se a gente tiver que ser julgada por cada imagem que publica, cada texto que escreve, cada post que compartilha, cada transmissão ao vivo, não vai ter salvação pra ninguém. Seremos todos condenados. Porque tudo por ser interpretado da pior forma possível. Pode, mas não precisa ser. Infelizmente o vício parece ter chovido sobre todos nós nas redes sociais.

Veja o caso do professor Robert Kelly entrou numa transmissão ao vivo na BBC direto de sua casa para falar do impeachment da líder Sul-coreana Park Geun-hye.,quando seus filhos entraram na sala. Eu achei a coisa mais fofa e engraçada do mundo quando vi a cena enviada por  meu amigo Carlos Cardoso no Twitter. Nunca imaginei que algo tão humano, caseiro e divertido pudesse geral qualquer coisa ruim. Mas, como sempre acontece, não faltaram os seres humanos problemáticos para ver pelo em ovo, encontrar escamas em unicórnios e apontar chifres em sereias.

Teve gente que, por ter visto ‘uma mulher oriental’ correndo atrás dos pequenos (é a mulher dele, Jung-a Kim, sul coreana), já supôs que ela fosse uma babá filipina ‘explorada’ pelo jornalista. Outros acharam que ele ‘deveria ter integrado as crianças e blá blá blá’. Também comentaram que ele ’empurrou’ a filha com o braço. Enfim, o fato é que uma coisa singela virou motivo pra uma infinidade de pessoas em todo o mundo julgarem o comportamento dele, levantarem hipóteses sobre o relacionamento dos dois e condenar o comportamento espontêneo de todos os envolvidos.

Outro que sofreu escrutínio e ofensas infinitas foi o filósofo e professor Leandro Karnal, que postou uma foto num jantar em Curitiba com o juiz Sérgio Moro. O ataque foi tão grande que ele apagou o post (ele comentou o ocorrido no Facebook). Veja aqui um print screen da tela do Diario de Pernambuco.

diariodepernambuco

Não vou entrar na questão política, mas a pergunta é: Karnal não pode postar uma foto sem sofrer ataques de todos os lados? Ou porque a pessoa é pública e o post é público isso dá a qualquer um o direito de ser grosseiro, ofensivo ou ameaçador com o autor, seja ele quem for? É isso que vamos fazer com essa maravilha de Internet, vamos usá-la para comprar coisas e destruir pessoas? Para assistir vídeos e ofender famosos?

Não acredito que, conscientemente, essa seja nossa opção. Acho que é só um hábito ruim que adquirimos, uma onda de raiva que bateu e nos arrastou para as pedras.

Se a gente parar pra pensar, ninguém tem o direito de julgar, nem veio ao Planeta Terra pra gastar seu precioso tempo de vida pra isso.

Porque todos nós, Fábio, o professor, a mulher, as crianças, o âncora da BBC, os juizes, o Karnal, você, eu, estamos todos vivendo nossas vidas e publicando pequenos flashes na rede. Não para sermos condenados, mas apenas para compartilhar. Cada um de nós é muito mais do que qualquer coisa que a gente faça. Ouvi essa frase linda num documentário sobre a técnica de meditação do Vipássana em prisões: até um criminoso é mais do que o crime que ele cometeu.

Somos muito mais do que nossos posts, nossos erros, nossos julgamentos.
Somos muito melhores do que tudo isso.
Falta só a gente olhar com um pouco mais de compaixão e postar com um pouco mais de amor.

<3