Sou mulher, hétero e caucasiana e, portanto, privilegiada.
Por mais que eu sofra com a estrutura machista, por menos que eu dê importância à minha orientação sexual, pelo simples fato de ser branca  a sociedade me contempla com privilégios, mesmo que eu os rejeite ou tente abrir mão deles. É um fato. Brancos têm privilégios apenas por serem brancos, assim como negros sofrem discriminação apenas por serem negros, mesmo num país de maioria negra como o Brasil.

Por ser branca, não tenho como sentir na pele a violência, a dor e todas as consequências injustas, diárias, de todo um sistema racista,  que meus semelhantes negros sofrem. Mas sinto empatia diante da dor,  revolta diante da injustiça, vontade de participar da destruição dessa estrutura preconceituosa, desumana e desigual.

Posso fazer outra coisa além se sentir tudo isso, posso me conscientizar do meu papel nesse sistema.

Essa consciência começa com pequenas mudanças nas minhas atitudes, como não tentar ‘disfarçar’ os privilégios que tenho. E eu já fiz muito isso.

Sempre que me sentia ‘envergonhada’ por ter ascendido socialmente eu jogava a carta do ‘mas-eu-vim-de-família-classe-média-baixa’, para atenuar a culpa. Não atenua. Até porque não existe culpa por subir na vida. Mas tem que existir a consciência de que mesmo vindo de família simples, mesmo tendo estudado em escola pública, mesmo tendo feito universidade pública, minhas conquistas foram, sim, mais fáceis do que qualquer outra menina negra que tivesse partido do mesmo lugar que eu.  Mesmo que nós duas tivéssemos seguido a mesma trajetória escolar até a faculdade,  ainda assim, ao chegarmos no mercado de trabalho, muito provavelmente ela sofreria discriminação e eu, não.

Então, não adianta usar a justificativa do  ‘eu também sofri’ e venci na vida.  Essa ideia em si perpetua a desigualdade, porque cria a falácia  de que ‘se eu que era pobre subi na vida então o negro pobre também pode’. Pode no sentido de capacidade, mas a sociedade barra os negros! Mesmo o pobre branco tem mais privilégio que o negro pobre!  O racismo está tão impregnado na sociedade brasileira que tornou-se invisível para muitos, mas ele está lá o tempo todo, no jeito do branco olhar pro negro, na hora do branco escolher um funcionário pra contratar, na hora da familia branca aceitar o namorado ou namorada dos filhos!

Se fizermos a metáfora de que  a vida é uma corrida em busca de sonhos e objetivos, o branco disputa com outros brancos correndo 100 metros numa pista de atletismo, enquanto o negro tem que vencer uma maratona numa corrida de obstáculos.

Hoje é dia da consciência negra.
Pra mim, que sou branca, hoje é dia da consciência.
De que ou trabalhamos juntos para acabar com o sistema racista do Brasil, ou ele vai acabar com todos nós.