Devorei a entrevista que o Estadão publicou ontem com Soninha Francine. Ela falou de seu companheiro, ex-morador de rua, contou com o o conheceu, as dificuldade de seu relacionamento e, claro, me fez refletir muito. Pensei em minha vida, em meus antigos relacionamentos, nas pessoas que passaram pela minha vida, nas paixões e amores, tateando com minhas vivências a história de Soninha para alcançar um pouco de seu sentimento. Não é fácil. A tendência é mais julgar que compreender. Mas, mesmo não compreendendo é possível apenas torcer pra que sejam felizes e vivam vidas amorosas.

 

O que me fez escrever este texto, no entanto, foi a parte em que ela fala de João Doria Jr., o prefeito de São Paulo que a contratou e a demitiu logo depois. Soninha faz um diagnóstico claro: ele sofre de excesso de autoconfiança. A pessoa que vive essa realidade tem tanta certeza de estar certa o tempo todo que não ouve os outros e ai, comete equívocos.

Acho que posso falar do tema pois trabalhei com João durante muitos, muitos anos e sou o oposto, sempre sofri de falta de autoconfiança. Até hoje sofro e minha ajuda vem de minha filha de 23 anos. Quando fazemos provas de corrida de rua ela sempre me faz lembrar que eu posso correr mais do que imagino. Ontem mesmo, quando fizemos a meia maratona do Rio de Janeiro, ela me lembrou disso. Deu certo. Mas voltemos para o ponto de largada, o sal.

Autoconfiança, como tantos outros aspectos da nossa personalidade são temperos, dai o termo ‘temperamento’. A dose de cada coisa, a mistura de todas elas, geram o nosso tempero final. Tem gente que é ácida, azeda, doce, amarga, salgada. O excesso de autoconfiança salga a pessoa a ponto de torná-la impalatável. Não dá, não desce, mesmo quando tem boa intenção. Em geral, acontece muito com pessoas obsessivas, que buscam a perfeição e se apegam no ‘fazer tudo certo’ para alimentar ainda mais essa busca.

Há muitos homens assim, muitos chefes assim, que acham que sabem mais e melhor ou, nos casos mais graves, que são mais competentes que os outros e que, finalmente, merecem e valem mais que todos os que estão a volta. É complicadíssimo de lidar. Quem está em volta tem poucas opções. Enfrentá-los é bobagem, os salgadões não cedem, não concordam, não dão o braço a torcer. Competitivos agem exatamente no sentido contrário, ainda sugam sua energia e fortalecem suas convicções. Ignorá-los seria uma boa opção, mas requer muita técnica. Eles nos enlouquecem, não dá pra fingir que não estão ali, mandando em você. A opção mais viável é fingir que concordou e depois fazer do jeito que você quiser. Pode terminar em demissão, separação, mas é um caminho. O melhor seria rir deles, não levá-los a sério, brincar com eles. Em geral, manter o espírito leve diante de alguém com temperamento de autoconfiança excessiva é como jogar uma batata crua no feijão com sal demais. A batata absorve um pouco do sal e alivia um pouco o feijão.

Contra a falta de autoconfiança, bem, só posso recomendar o que venho tentando: com calma, com baby steps, muito esforço e coragem, a gente vai conseguindo resultados, apoio, amor e descobre que pode mesmo fazer mais do que a gente imagina. Todo mundo que tem uma vida, merece essa vida, tem o direito de viver essa vida, da melhor forma possível. E, pra isso, é preciso ter apoio e amor de todos. Sozinho, ninguém sobrevive. Nem os hiperautoconfiantes.