Você conhece a pergunta: “Você quer ter razão ou ser feliz?”
É um jeitinho simplório de dar um toque quando a pessoa quer tanto estar certa que perde a noção de fazer isso com leveza. Nem sempre a gente consegue. Eu, por exemplo, vivi uma situação em que eu tinha razão, não agi como um bom ser humano e, por isso, não me senti feliz. Existe uma forma de agir que é melhor pra gente e pro mundo. E é essa a história que vou contar:

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Há duas semanas terminei uma temporada maravilhosa e exaustiva de trabalho, no Rio de Janeiro, a 3a. Temporada do “Tudo pela audiência”, com Fábio Porchat e Tatá Werneck, que estreia agora, dia 9 de maio. Não me lembro de ter ficado tão esgotada física e mentalmente com um projeto e, em função do desgaste, achei que a única forma de me compensar era pegar o dinheiro que ganhei e gastá-lo numa viagem rápida com a família. Assim, as gravações terminaram no dia 19 e, no dia seguinte fui para Nova York com meu marido e minha filha.

O investimento foi alto para pouco tempo, por isso, achei que era melhor aproveitar ao máximo os poucos dias de feriado de Tiradentes. Comprei ingressos para três musicais, marquei de encontrar minha amiga Marcie que mora em Manhattan, me inscrevi numa corrida de 5km só pra brincar de correr em Nova York.

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Corri de short, à beira do Rio Hudson, num lugar lindo, num dia de muito vento e temperatura de 9 graus. Estava bem frio pra correr. E, como era o dia da viagem de volta, eu estava também um pouco tensa. Deu tudo certo, voltamos pro hotel e fui arrumar minha mala pra encarar a volta. Viajar é uma delícia, mas voar é sempre um pouco tenso. Ainda mais com aeroporto americano e todo aquele protocolo de segurança. Tell me about it, a corrida foi organizada pelo Memorial 11 de Setembro, acho que não preciso dizer mais nada.

Malas arrumadas, banho tomado e fomos para o aeroporto. Minha malinha de mão só tinha meu notebook, o carregador e um travesseirinho pra dormir no avião.

Na hora de fazer o check in a atendente, que estava de muito mau humor, pediu pra eu pesar a bagagem de mão. Sem me olhar na cara, ela disse, em espanhol:

– Está com excesso de peso.  Tire cinco quilos ou despache, não pode levar no avião.

Fiquei surpresa, porque a mala estava praticamente vazia! O que eu ia tirar? As rodinhas? Tentei argumentar.

– Não pode ser, minha mala está quase vazia, não tem cinco quilos pra tirar!

– Senhora, tire cinco quilos ou despache, a mala não vai na bagagem de mão. Próximo!

Meu marido pegou a mala de mão dele e colocou na esteira.

– Senhor, sete quilos de excesso. Tire os sete quilos da bagagem de mão ou despache a mala, no avião não vai assim.

Nesse momento eu já estava espumando. Tirar SETE quilos da mala dele? Como assim?!?! A mala deve PESAR sete quilos! E então, nervosa e irritada eu vi o problema. Ela estava pesando em POUNDS. O visor marcava lb, de libras. Ou seja, ela achou que a mala dele tinha treze quilos, mas eram treze libras, o que equivale a  menos de seis quilos. Então, eu avisei:

– A balança está em pounds! Não são treze QUILOS, olha o visor, treze libras são SEIS quilos! Tá errado, olha aqui!

E aí eu já mandei todo um discurso irritado pra mulher, que fez uma cara pior ainda, não admitiu o erro, ficou em silêncio e deu os cartões de embarque. Eu estava indo pro Raio-X quando meu marido resolveu voltar e pedir que a moça se desculpasse. Ela se negou. Ele insistiu. Eu disse que ela devia ao menos admitir que estava errada e, talvez, tenha errado com todos os passageiros antes de nós. Ela ficou em silêncio, não disse nada. Fomos embora e, de longe, ouvi um irônico ‘Boa viagem…’

Por que ela não pediu desculpas? Por que ela não admitiu o erro? Não seria o certo? O que aconteceu?

O que aconteceu é que a ter razão, eu me coloquei numa posição superior a ela. Eu, A CERTA, ela, a ERRADA. Eu por cima, ela por baixo. E do alto da minha empáfia, munida do cetro da razão, que espaço sobrou pra ela? O espaço da ‘desculpa’? Não, apenas o espaço da HUMILHAÇÃO. E ninguém quer ser humilhado. Vai saber quantas vezes essa mulher passou por humilhações na vida. Então, dignamente, ela escolheu o silêncio, a não ação.

Por mais nervosa que eu estivesse (e estava), se eu tivesse apontado o erro como algo natural, tipo ‘Ah, olha, acho que a balança está medindo em libras, por isso o número parece tão alto, em quilos é mais ou menos a metade. 🙂 ” tudo teria sido diferente. Eu teria me colocado ao lado dela, no mesmo plano, apenas apontando o PROBLEMA e não o ERRO DELA. E ai, eu criaria um ESPAÇO de perdão, de compreensão, de compaixão. E ela poderia dizer qualquer coisa como ´é mesmo’ ou até ‘desculpas’.

Então, não existem só essas opções ‘ser feliz’ OU ‘ter razão’. Porque se eu tivesse despachado a mala eu teria sido infeliz e com razão. Existe uma terceira opção que é lutar pelo seu direito, sem se sentir acima do outro. Uma opção de igualdade para  preservar a dignidade de quem por acaso errou. Um espaço de afeto e humanidade onde todos pode ser felizes, com ou sem razão.

Lição aprendida.
Obrigada, moça do check in.