TV com porta dos fundos e chave-mestra

As redes sociais e alguns sites ferveram no começo de fevereiro com a notícia de que os novos modelos de smart TVs da Samsung estavam “ouvindo” conversas dos usuários.  A própria Samsung reconhecia o fato no manual do aparelho, informando que conversas podiam ser captadas pelo sistema de reconhecimento de voz da TV e enviadas a “terceiros”.

Um prato cheio para os conspiradores de costume no Facebook e para o tipo peculiar de jornalismo rasteiro que infelizmente é cria legítima da internet – com direito a um dilúvio de tuítes histéricos e comparações com trechos do romance “1984” de George Orwell.

Um estrago que a Samsung correu para consertar, declarando o óbvio: a empresa não está vendendo aparelhos de espionagem, apenas eletrodomésticos modernos. Os “terceiros” que podem receber conversas dos usuários são os parceiros da Samsung que desenvolvem a tecnologia de reconhecimento de voz. Não é uma escuta procurando vozes “subversivas”, e nem os compradores dessas TVs moram na Alemanha Oriental do tempo da URSS.

Mas o temor histérico tem um fundo de verdade, senão não geraria tantos cliques e likes pela web afora. A noção generalizada é que vivemos num mundo com cada vez menos privacidade e anonimato, e que a tecnologia atual facilita muito essa invasão.

Depois das revelações do Wikileaks e Edward Snowden, sabemos que o computador repassa muitas informações íntimas e privadas para agências de inteligência e segurança de muitos países, dos EUA até o Irã e a China. No mundo “civil” as empresas também mineram dados pessoais, em busca de padrões e perfis, para oferecer anúncios e produtos personalizados.

As tecnologias mudam de contexto rapidamente. Em 2004, consumidores alemães protestaram contra o uso de etiquetas eletrônicas em supermercados – as etiquetas conhecidas como RFIDs transmitiam informações mesmo depois que os consumidores saíam das lojas. Chegaram a criar uma associação chamada CASPIAN (Consumers Against Supermarket Privacy Invasion and Numbering, ou Consumidores Contra a Invasão e Numeração pelos Supermercados). Dez anos depois, essas mesmas etiquetas são os elementos fundamentais da chamada Internet das Coisas, fazendo justamente o que irritou os alemães em 2004.

Gostamos de tecnologias que são cômodas e eficientes. É cômodo usar uma TV com comandos de voz, e é conveniente uma casa equipada com eletrodomésticos conectados que “adivinham” nossas necessidades a partir de algoritmos e padrões de uso.

Mas tememos que essa comodidade se volte contra nós. Imaginamos que esses eletrodomésticos benignos tenham portas secretas que permitem o acesso pelos fabricantes, por órgãos do governo e por criminosos comuns. E que alguém pode mudar a configuração à distância, usando algum tipo de chave-mestra eletrônica.

As tecnologias digitais exigem mais transparência e honestidade que as máquinas de antigamente. Os fabricantes e governos deveriam dar garantias claras de que uma TV é apenas uma TV, e não uma teletela maligna que vigia e delata.

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(Ilustração: Andrea Kulpas)