Dos quintais e bairros digitais aos jardins murados na Internet

A história da Internet é a mais movimentada e veloz entre todos os meios de comunicação. Em pouco menos de 20 anos, a Web passou por mais transformações tecnológicas e culturais do que a TV, que tem mais de 80 anos. Uma das grandes transformações foi a mudança dos chamados espaços sociais: partiu de comunidades online que eram muito populares em meados dos anos 1990 como GeoCities e Tripod até chegar nas redes sociais atuais, como o Facebook e Twitter.

O ponto de partida para essa reflexão é o site Cameron’s World, um projeto que reúne alguns exemplos significativos da comunidade de internautas GeoCities, criado em 1994 por David Bohnett e John Rezner e comprado em 1999 pelo Yahoo por US$ 4 bilhões na época. O Yahoo encerrou o site em 2009. Além do Cameron’s World, existem algumas outras páginas que funcionam como museus do GeoCities, como o GeoCities Special Collection, ReoCities, OoCities e GEOCITIES.ws.

O GeoCities surgiu a partir de um serviço de hospedagem gratuita na Web, chamado Beverly Hills Internet, oferecendo generosíssimos 15 megabytes de espaço para páginas pessoais, divididas em “bairros” e “cidades”, e segundo temas como rock e punk music (“Sunset Strip”), finanças e investimentos (“Wall Street”), ou ficção-científica (“Area 51). Em pouquíssimo tempo, o GeoCities se tornou um dos destinos mais populares naqueles dias românticos da rede mundial.

Quão popular era o GeoCities? Segundo o historiador canadense Ian Milligan, o nexo de sites pessoais é um dos maiores registros de vidas de pessoas comuns do mundo. Em termos de comparação, o registro Old Bailey contém textos detalhando a vida de 197.000 ingleses comuns, que não faziam parte da elite britânica, entre 1674 e 1913. O GeoCities, entre 1996 e 2009, chegou à marca de 38 milhões de páginas pessoais.

É difícil explicar o impacto do GeoCities para quem tem menos de 35 anos hoje. Para resumir (muito), a Web estava na infância e o código HTML que está por trás de todas as páginas de internet até hoje ainda estava na sua primeira versão, a 1.0. Isso limitava muito o que se podia fazer em termos de texto e imagem. Por outro lado, era uma Web muito democrática: a página pessoal da Mariazinha da Esquina não era muito diferente da homepage de uma corporação gigante como a General Motors ou Coca-Cola.

Para criar uma página no GeoCities não era possível preencher tudo automaticamente, como nos Bloggers de hoje: a página tinha que ser escrita à mão, na raça, usando um editor de HTML – os mais durões escreviam os códigos no Bloco de Notas (Notepad) mesmo. A velocidade dos modems era lentíssima, portanto só dava para colocar JPEGs minúsculos de baixa resolução, GIFs igualmente pequenos e musiquinhas em formato WAV. Vídeo, nem em sonho.

Um exemplo típico:

GeoCities

 

As páginas pessoais do GeoCities podem ser entendidas como uma imensa evolução em relação aos espaços pessoais criados anteriormente, em redes fechadas chamadas Bulletin Board Systems (BBS) e depois em grandes serviços privados como Compuserve, ou a primeira versão do America Online. Com o protocolo universal da Web, era um avanço formidável poder publicar uma página pessoal que poderia ser vista por qualquer pessoa no mundo com um computador conectado à Internet. Ao mesmo tempo, esses sites pessoais são os antecessores de blogs e de comunidades sociais modernas, como Twitter e Facebook — com uma passagem obrigatória pelo Orkut e várias outras redes sociais.

A crítica mais frequente que se fazia ao GeoCities era o amadorismo das páginas pessoais – geralmente feitas com gosto duvidoso no uso de cores, de elementos de imagens (pequenos GIFs animados, fontes coloridas, textos que piscavam na tela, etc). Mas em retrospectiva, esse era um dos aspectos mais notáveis do GeoCities. Uma “arte” cafona, mas que representava a personalidade de cada criador. Pessoas comuns falando sobre gatos, espaçonaves, cultivo de gerânios, conserto de motores, etc, etc. Não havia qualquer tipo de regra, código de conduta ou restrição de temas.

Podemos pensar os sites pessoais do GeoCities como pequenas “chácaras”, ou “sítios” (trocadilho intencional) no território digital da década de 1990. Um tempo onde a Internet era justamente entendida como um “espaço” análogo ao mundo real. Fazia sentido então criar comunidades com nomes de bairros e cidades.

Nos últimos dez anos, abandonamos as metáforas espaciais em relação à Internet. A Web deixou de ser um “lugar”, um território geográfico onde se “navega”. A última tentativa de manter essa correlação entre o espaço real e o virtual foi a comunidade 3D Second Life, que chegou a ser habitada por milhões de avatares que representavam pessoas reais. Em Second Life, cada usuário podia encarnar um personagem criado sob medida, e interagir com outros avatares em ambientes similares a bairros e cidades, com clubes, lojas, cinemas e até bordéis.

Desde o começo do século, os espaços de convivência online mudaram profundamente. Abandonamos o modelo de pequenas chácaras, de “dachas” personalizadas, para entrar em ambientes que parecem como grandes jardins murados, de propriedade privada e cheios de regras. São como parques temáticos digitais, locais privados que possuem normas bem rígidas. Baby Consuelo e Pepeu Gomes foram barrados na Disneylândia por conta dos cabelos pintados de roxo.

Como disse Phoebe Connely, o encanto de comunidades como GeoCities e Lycos era dar a cada plebeu uma voz digital que poderia ser ouvida a apreciada ao redor do mundo. Eram proto-blogs muito modestos na aparência, mas cheios de conteúdo personalizado. E isso, infelizmente, deixou de existir.

O Facebook é um espaço para todos – desde que todo mundo goste de azul e concorde que não é permitido postar fotos de mães amamentando. Não há nada de comunitário no Facebook, na verdade. Os muitos milhões de usuários do Facebook são forçados a uma uniformização: não contribuem com nada além de alguns parágrafos de texto e links para vídeos e imagens. Há apenas uma ilusão de expressão individual, uma ironia num mundo tão individualista. Nos dias de hoje A cacofonia de vozes individuais na internet se torna cada vez um apito monótono, ressoando da mesma forma em todo o planeta.

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(Ilustração: Cleido Vasconcelos)