Biohacking as máquinas dentro de nós

Estamos em fevereiro de 2015. Uma reportagem da BBC mostra uma empresa sueca que decidiu adotar um novo sistema de acesso para os funcionários: um chip microtransmissor de rádio implantado sob a pele da mão direta. Menor do que um grão de arroz, o chip permite que a pessoa abra portas e use fotocopiadoras sem precisar de chave, cartão ou senha – basta aproximar a mão da porta para os sensores reconhecerem o chip. Sob a pele. Em nome do jornalismo, o repórter da BBC recebe um implante do chip. O procedimento é realizado por uma moça coberta de tatuagens, piercings e alargadores de orelha. Hey, estamos na Suécia!

Uma realidade assim faria um autor de ficção-científica menos corajoso hesitar na hora de escrever. Mas a coisa vai muito, muito mais fundo. Termos como “transhumanismo”, “biopunk”, “wetware” e “DIYBio” parecem extraídos direto dos romances e contos do gênero, mas são a expressão de uma realidade bem real, e galopante.

Sob o rótulo de “biohacking”, existe hoje uma legião de cientistas, amadores, hobbistas, coletivos e empresas dedicados a integrar o ser humano com a tecnologia. E não através de meros aparelhos externos, como um Apple Watch ou visores de realidade virtual. Mas integrando na própria carne os sensores e chips, modificando a biologia, a fisiologia, sintetizando novos compostos orgânicos. Muitas vezes, em laboratórios de fundo de quintal.

O barateamento de aparelhos sofisticados como sequenciadores de proteínas e outras máquinas antes restritas a grandes empresas e universidades fez florescer um movimento “do-it-yourself” e realmente punk nas fronteiras mais avançadas da biologia e da microeletrônica.

Como Bill Gates e Steve Jobs foram pioneiros em suas garagens décadas atrás, há hoje uma geração de cientistas amadores que transformaram o porão da casa dos pais em laboratórios avançados de biologia, criando proteínas e tecidos biológicos, em vez de inventar o computador pessoal. Na outra ponta do espectro, há uma ampla frente acadêmica séria e respeitável, endossando muitas das descobertas desses jovens amadores. E esse apoio é fundamental, porque as autoridades ficam nervosas com a ideia de laboratórios biológicos amadores.

Especialmente na Europa e em alguns pontos dos EUA e Japão, pipocam empresas que oferecem vários tipos de implantes subcutâneos, sensores de dados biomédicos, implantes ósseos impressos em 3D a partir de células-tronco de um paciente. Imãs, sensores e chips sob a pele devem se tornar muito comuns nos próximos dez anos. Este vídeo dos fundadores da empresa Grindhouse Wetware pode dar uma boa indicação do que nos aguarda – esses dois rapazes podem ser os novos Gates e Jobs.

E não são apenas tralhas eletrônicas. Há toda uma vertente mais “natural”, que pratica o biohacking através da química e do aperfeiçoamento de processos biológicos e fisiológicos. Por exemplo, criar maneiras para o corpo absorver melhor os nutrientes dos alimentos, ou tornar palatáveis alimentos que têm gosto ruim. Melhorar o desempenho físico e mental com substâncias desenhadas sob medida, as chamadas “smart drugs” ou “nootrópicos”.

O objetivo em comum de todas as facções do biohacking é semelhante. Transformar o ser humano em algo além: a carne integrada com a máquina, e muito mais. Mais forte, mais veloz, mais esperto: o Ciborgue. Outra palavra ícone da ficção-científica, que já se tornou uma realidade corriqueira.

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 (Ilustração: Andrea Kulpas)