Protesto contra a cultura do estupro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Em Paulínia, interior de São Paulo, uma menina de 11 anos entrega um bilhete escrito à mão para uma colega em que confessa e denuncia que é abusada sexualmente por seu pai. No Rio de Janeiro, o Dossiê Mulher registra que quase 7 em cada 10 casos de violência sexual ocorreram dentro de casa, em grande parte cometidos por pessoas de confiança. Em declaração para o G1, que divulgou os dados da pesquisa, Major Cláudia, organizadora do documento, disse:

 

“Se mais de 60% dos casos acontecem dentro de casa e no círculo de amigos e vizinhos, parentes, pais, padrastos, isso torna essa comunicação (do crime) mais difícil. A gente tem casos de abusos de crianças que sequer falam, de bebês, com laudos periciais que comprovam estupro”.

 

O primeiro caso é a materialização dos números da pesquisa, que infelizmente segue a tendência de outros levantamentos sobre violência sexual. Levantamentos estes que não deixam dúvidas sobre os modos com que esta violência ocorre no Brasil: é perpetrada por pessoas de confiança contra os membros mais vulneráveis da casa e da família (mulheres, meninas e meninos).

Sabemos disso há anos – talvez décadas – e a violência continua acontecendo e chocando praticamente toda a sociedade a cada caso divulgado. Não vemos diminuir significativamente a violência contra mulheres e meninas, no máximo observamos um aumento de denúncias. Por que será que combater esse problema se mostra tão difícil, ainda que centenas de parlamentares elejam-se com a plataforma de defender a família e as crianças?

Por muitos motivos, mas acredito que o principal é que combater a cultura do estupro exige uma análise interna, uma mea culpa, exige rever nossos comportamentos e não apenas apontar o dedo para culpar os outros. É, de fato, uma mudança cultural.

E não venha me dizer que não existe cultura do estupro. Olhe para qualquer dado, analise a prevalência com que o crime ocorre no Brasil antes de negar essa informação. Esse crime bárbaro é quase banalizado em nosso país, tão recorrente que é. É impossível dizer que não há algo na nossa cultura que compactue (para dizer o mínimo) com a violência sexual quando ela acontece a cada 11 minutos.

Portanto, combatê-la exige bastante de todos nós. Não apenas fazendo o óbvio (não abusar), mas também não duvidando da palavra da vítima, apoiando a denúncia e a responsabilização do agressor de todas as formas possíveis, conversando e apoiando quem precisar e principalmente erradicando práticas violentas do nosso dia a dia. É a “novinha” das músicas, é o amigo que se aproveita de uma mulher bêbada e ninguém repreende ou diz que está errado, o parceiro que canta uma mulher na rua sem autorização.

Todos nós podemos contribuir de alguma maneira. Mas, novamente, isso exige olhar crítico para o que temos que mudar em nós e o que devemos apontar em nosso círculo próximo e querido. Infelizmente, autoanálise não é uma prática muito apreciada no Brasil, ou não estaríamos perpetuando os comportamentos destrutivos de sempre, que destroem e sempre destruíram vidas de mulheres, jovens, LGBTs, negr@s e pobres.

Combater violência sexual exige, literalmente, olhar para dentro de casa. Exige coragem para assumirmos que o problema não está no homem louco e descolado da sociedade, mas sim que pode dormir na cama ao lado. Consequentemente, exige coragem para ficar do lado certo e mais vulnerável da equação.  

Fácil não é, mas enquanto não fizermos isso vamos continuar vendo surgir, dia após dia, as mesmas pesquisas e casos que repetem o que já sabemos, mas escolhemos ignorar.