Uma a cada cinco mulheres brasileiras de até 40 anos já realizou um aborto*.

As estimativas são de que, a cada ano, sejam feitos entre 600 mil e 1 milhão de interrupções voluntárias de gravidez só por aqui.

Uma compilação de pesquisas do Ministério da Saúde apontou que, em geral, a brasileira que aborta tem entre 20 e 29 anos, é religiosa (majoritariamente católica), está em um relacionamento estável, faz uso de métodos contraceptivos e já tem filhos. Bem diferente do satã encarnado que adoram fantasiar.

Sinto informar, leitor, mas mesmo que você não saiba, você conhece uma mulher que já abortou em algum momento da vida. E se você conhecer a história dessa mulher, provavelmente também não deseja que ela seja punida por isso.

Isso porque nossa sociedade é muito hipócrita quando o assunto é aborto. Sob um discurso moralista e que não para pra pensar por um segundo, reproduzimos a ideia de que aborto é assassinato e ponto final, ignorando completamente as histórias de milhões de mulheres que enfrentam esse dilema.

A cada segundo que passamos tapando os olhos para o problema e ignorando suas nuances, somos culpados pelas milhares de mortes totalmente evitáveis de mulheres que continuam ocorrendo. Porque é isso que acontece quando o aborto é proibido: as mulheres que têm uma gravidez indesejada vão continuar abortando, mas sem nenhum amparo do Estado e recorrendo a métodos inseguros. São clínicas clandestinas ou procedimentos caseiros, que além de colocar sua vida em risco, as “promovem” ao status de criminosas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 22 milhões de abortos clandestinos realizados por ano no mundo. Vinte-e-dois-milhões. 98% deles acontecem nos países em desenvolvimento, causando 300 mil mortes por ano, uma média de 800 mulheres morrendo desnecessariamente por dia. É uma das maiores causas de mortalidade materna, mas que se mostra incrivelmente difícil de reduzir de tanto que esbarra no moralismo.

Uma pesquisa da OMS mostrou que entre 1990 e 2014 as taxas de aborto caíram significativamente nos países desenvolvidos (de 46 para 27 a cada mil mulheres em idade reprodutiva), mas que seguiu praticamente inalterada nos países em desenvolvimento  (de 39 para 37). No Brasil, temos 113.164 atendimentos médicos decorrentes das complicações do procedimento. O que significa que elas tentaram abortar como puderam, mas que algo deu errado e tiveram que ir a um centro de saúde para não perder a vida. Como se a situação não estivesse complicada o suficiente, muitas têm o atendimento negado por terem tentado abortar ou são denunciadas à polícia pela própria equipe de saúde, uma ação equivalente a rasgar o código de ética da profissão.

Criminalizar o aborto não adianta para nada além de punir as mulheres e é uma política típica de países conservadores e que sequer faz efeito. Não só não consegue pôr fim à prática como leva as mulheres para a ilegalidade e aumenta as despesas do Estado, já que as complicações do procedimento custam e muito para os sistemas de saúde.

Que fique claro: nenhuma mulher é e nem será obrigada a abortar caso o procedimento seja descriminalizado. A legalização pretende apenas oferecer condições seguras para as mulheres – eu, você, sua mãe, sua esposa – realizarem a interrupção. Pretende evitar que mulheres continuem morrendo por não quererem ou poderem arcar com uma gravidez. É uma medida que preza pela nossa autonomia perante nosso corpo, vida e sexualidade (o que inclui aumentar o acesso a métodos contraceptivos e a educação sexual). Já passou da hora de deixarmos a hipocrisia de lado e discutirmos o assunto com seriedade. As mulheres do Brasil não podem mais esperar.

*Fonte:

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O mês de setembro é considerado o mês para se discutir a descriminalização do aborto, culminando no Dia Mundial pela Descriminalização (dia 28). Para quem quer entender melhor alguns pontos importantes da discussão, recomendo os vídeos abaixo. São dois pequenos documentários e um vídeo da ONU.