Foto: Lula Marques / Fotos Públicas (11-07- 2017)

A semana, o mês e o ano não estão fáceis para nós trabalhadores. Para nós trabalhadoras então nem se fala: como vocês já devem saber a essa altura, o Senado aprovou na terça-feira a reforma trabalhista que muda a CLT em mais de 100 pontos, incluindo a jornada de trabalho, férias, descanso e condições de trabalho para mulheres grávidas.

O mercado de trabalho nas configurações atuais já está longe, muito longe de ser um mar de rosas para as mulheres. Não bastassem as piadinhas e os salários menores de um machismo institucionalizado por séculos, nos faltam oportunidades. Há uma quantidade enorme de mulheres – e que foge às estatísticas – que já perderam vagas, promoções ou demais oportunidades apenas por serem mulheres.

Porque era pra dar aula pra uma turma de mulheres “histéricas” e um professor homem é que conseguiria controlar.

Porque, por terem que cuidar da casa e dos filhos, não podiam se ausentar por longos períodos ou sequer participar das reuniões de networking depois do trabalho. E dos cafés, charutos e afins.

Porque o resto da equipe é masculina e a empresa não queria “distrações”.

Porque estavam para casar e corriam o “risco” de ser mães em breve.

 

Isso usando apenas exemplos de pessoas conhecidas e com quem já falei diretamente sobre o assunto. Imagine quantos casos há por aí. Imagine nas camadas mais pobres, entre as mulheres pardas, negras, migrantes.

As novas leis trabalhistas têm tudo para deixar essa situação ainda mais aguda. Fico pensando em como a “reforma” prioriza os acordos e os coloca acima da lei. Nós, mulheres, tivemos e temos que lutar com todas as forças para conquistar alguns direitos. E o único jeito de garantir, de fato, esses direitos, era escrevê-los tim tim por tim tim. Se não tiver uma Constituição dizendo com todas a letras que homens e mulheres são iguais perante a lei, pode ter certeza que não seremos. Se não estiver escrito que é obrigatório pagar licença-maternidade e que grávidas não podem ser demitidas, não tenham dúvidas que essas coisas aconteceriam (ainda mais). Tudo que batalhamos, nós batalhamos para registrar, em lei, nossa igualdade. Como podem tirar isso da gente?

Como é que podem aprovar uma “reforma” em que está lá, escrito, que as grávidas podem trabalhar em lugares insalubres? E não me venha com argumento de atestado que diga que nem mãe nem filh@ correm risco, porque a definição literal de insalubre é “Que não é saudável/Que causa doença”. Como é que podem ter coragem de dizer que se importam com a vida?

Por causa de tudo isso, acho que não há coincidência nenhuma no fato de senadoras mulheres terem interrompido a sessão de votação da “Reforma” e tomado as cadeiras como ato de resistência. E de, após isso, as luzes terem se apagado. E elas continuaram ali, comendo marmitas – um gesto que deve ser desconhecido por boa parte dos nossos parlamentares.

Não há nada de coincidência, há tudo de simbólico.

O Senado nunca foi ambiente acolhedor para as mulheres, não. Só chegamos ali em 1979, 90 anos depois da proclamação da República. E só fomos eleitas na década seguinte, porém só tivemos um banheiro feminino para senadoras em 2016. Até lá, esse direito nos foi negado e as senadoras usavam o banheiro do restaurante.

Não há nada de coincidência, há tudo de simbólico.

O Senado e o Brasil permanecem não acolhedores para as mulheres. Nesta terça, por algumas horas, elas brilharam, mas os homens se recusaram a ver.


A Human Rights Watch lançou um relatório fantástico sobre a situação das mulheres e famílias atingidas pela epidemia de zika no país, especialmente no interior de Pernambuco e Paraíba. Ele escancara a falta de políticas do Estado para combater o problema a longo prazo e a assistência falha e deficiente às crianças e famílias. Acesse aqui. 


Este post é dedicado ao catador Ricardo Oliveira Santos, executado pela Polícia no início da noite desta quarta-feira, em São Paulo.


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