Ilustração: Helô D’Ângelo*

Sou mulher e por isso as ruas nunca foram exatamente seguras para mim. O assédio é cotidiano e o estupro é sempre um fantasma que ronda. Mas descobri um novo tipo de medo quando passei a ser visivelmente LGBT e, nas vésperas da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, quero contar um pouco mais disso.

Eu digo “visivelmente” LGBT porque eu sou bissexual. E antes namorava um homem e, portanto, não estava sujeita a essa violência homofóbica “clássica”. Foi só quando comecei a me relacionar com uma mulher – e a sair na rua com ela – que um novo tipo de ameaça passou a andar de mãos dadas com a gente.

Pessoalmente, eu me recuso a deixar de andar de mãos dadas porque ~~as pessoas podem não estar preparadas pra isso. Não estou fazendo nada de errado e não vou me esconder, tudo que os homofóbicos querem. Tenho plena consciência que o meu andar de mãos dadas é um ato político e afrontoso. Mas sejamos honestos, eu sou privilegiada pra caramba. Sou branca, classe média alta, moro em São Paulo e frequento na imensa absoluta das vezes lugares centrais da cidade. Meus amigos são quase todos da USP. O risco existe, mas frequento o que há de mais progressista e “acostumado” no Brasil. Estivesse em outro ambiente, não sei se diria o mesmo.

Só que é isso: o risco existe. Meu meio me protege o máximo que pode, mas ainda assim não me blinda. Sair de casa é bem mais difícil (repito: bem mais difícil) do que ficar em casa, porque a verdade é que você está vulnerável a todo o momento. Felizmente nunca fui agredida fisicamente, mas os olhares censores são mais do que eu posso enumerar. Olhares que dizem claramente que você não é bem-vinda ali e que é melhor não se manifestar. E não se enganem, isso dói.

Mesmo tendo plena certeza que não faço nada errado e que NÃO DEVO ME ESCONDER, olhares doem porque são uma confirmação de que a sociedade não te quer como parte dela. E doem porque mesmo com todo o avanço que temos feito – e que é irreversível, sorry haters – não vou usufruir nessa encarnação de uma sociedade igualitária. Mudar cultura leva tempo.

O pior é ter a consciência de que, para muita gente, bater em outra pessoa – ou estuprar, no caso das mulheres lésbicas e bissexuais – é um ato aceitável. Talvez condenável, mas depende da situação. O pior é saber que para muita gente  – inclusive pessoas que teoricamente “me amam” – é igualmente condenável se relacionar com uma mulher e apanhar na rua por causa disso.

Basicamente, andar na rua e simplesmente viver minha vida é um peso muito maior do que eu gostaria que fosse, por mais cercada de privilégios que eu seja. Tenho que constantemente calcular se é seguro ir a determinados lugares, se é seguro dar as mãos e se continuarei sendo tratada como gente por causa disso. E, mesmo estando no melhor dos mundos, ainda não deixo de contar com a “sorte” de não ter ninguém que parte pra violência. São preocupações que a maioria das pessoas simplesmente não têm e que, por conta disso, tratam como frívolas e banais.

Eu não poderia concordar mais: é mega banal discutir se duas pessoas podem ou não andar de mãos dadas. Numa sociedade que se diz civilizada, o pressuposto deveria ser que sim e fim de papo. Só que não é. E por isso vamos continuar marchando pelos nossos direitos e pela nossa cidadania. Domingo é dia de parada do Orgulho LGBT. Se você apoia essa causa, vem pra rua com a gente.

*Confira o trabalho de Helô D’Ângelo aqui.


No dia 19 de junho estreia em SP, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, a peça Anaïs Nin – À flor da pele. O espetáculo conta a trajetória da escritora de literatura erótica feminina em sua busca pela liberdade e emancipação. A entrada é gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes. Saiba mais:

Anaïs Nin – À flor da pele

De 19 de junho a 12 de julho – segundas, terças e quartas, às 20h
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro)
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 minutos
Capacidade: 30 lugares – Entrada gratuita


Contate-me pelo Facebook.