Ela pode seguir uma gestação indesejada ou tornar-se uma criminosa. Em qualquer cenário, ela sai perdendo.

Rebeca, a corajosa brasileira que solicitou seu direito ao STF. Foto: Débora Diniz/Anis – Instituto de Bioética

Em meio a plena discussão sobre PEC 181, início da vida e autonomia sobre o corpo das mulheres, Rebeca Mendes da Silva Leite, de 30 anos, entrou com uma liminar junto ao STF, por meio da Anis e do PSOL pedindo autorização para que pudesse interromper legalmente sua gravidez (na época, de quatro semanas). O caso foi divulgado na semana passada e a liminar já foi negada pela relatora Rosa Weber, o que traz a pergunta: e agora, o que será de Rebeca?

Ela é mãe de dois filhos e engravidou enquanto trocava de método anticoncepcional. Seu contrato de trabalho é temporário e só vai até o mês de fevereiro. As despesas, no entanto, continuam correndo, inclusive seu aluguel, que hoje representa metade do valor de seu salário.

Rebeca cursa o quinto semestre da graduação em Direito com bolsa integral do PROUNI, que ela classifica como o “passaporte da família para uma vida melhor”. Se tiver que seguir com a gestação, vai ter que interromper o curso por prazo indeterminado.

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Entrou com o pedido de interrupção junto a mais alta Corte do país porque não quer virar estatística. Nem de mulheres criminosas e presas e menos ainda das que morrem por improvisar métodos caseiros para conseguir realizar um aborto. Mas de nada adiantou tentar a interrupção legalmente, de nada adiantou sua coragem de vir a público contar sua história, mostrar seu rosto e sua vida.

E agora, o que será de Rebeca?

Todas as opções são desfavoráveis: ou ela mantém uma gestação indesejada e arrisca seu futuro e o sustento de seus dois filhos ou ela interrompe a gestação ilegalmente, correndo um sério risco de ser penalizada por isso. Em qualquer cenário, Rebeca sai perdendo. E enquanto não toma essa decisão, ela segue sendo escrutinada por aqueles que juram defender a vida, mas que não mais se responsabilizam depois que uma criança nasce.

Rebeca é uma mulher de coragem por manifestar publicamente seu desejo de interromper a gestação em um país que tem no aborto um de seus maiores tabus, ainda que ele aconteça o tempo todo e em qualquer lugar. Merece o apoio de todas as mulheres, porque luta por todas elas ao publicizar sua decisão.

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Como Rebeca, existem milhões. Centenas de milhares de brasileiras que se submetem, todos os anos, a métodos arriscados para poder interromper uma gestação. Mulheres que arriscam a própria vida para tentar seguir com dignidade. Mulheres que, assim como Rebeca, têm as decisões sobre seus corpos tomadas não por elas, mas por um seleto grupo de maioria masculina que comanda os órgãos de Poder do Brasil. E a bola do jogo está na mão deles.

No Brasil, a ilegalidade da prática prejudica a coleta de dados, mas é sabido que a situação por aqui é impraticável. Tentamos esconder que o aborto é induzido por mulheres comuns, mães, religiosas e com muito amor no coração. Mulheres como Rebeca.

Já passou da hora de mudar a situação e de discutirmos o aborto de maneira séria, sem tons moralistas, para que não precisemos ter mais Rebecas solicitando um direito que nunca deveria lhe ser negado.

Na tentativa de colaborar com esse debate, o blog vai publicar entrevistas com especialistas internacionais nas próximas semanas. Eles comentarão o contexto internacional sobre abortamento, a lei brasileira e a realidade das mulheres.

Até lá, toda força para Rebeca.

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