Está quase impossível não trombar com alguma problematização feminista no meio de uma discussão. Pode ser sobre filme, novela, política ou esporte, a questão está sempre lá para incomodar quem “só queria relaxar”.

Para alegria de umas e desespero de outros, o feminismo realmente é uma pauta em ascensão que está permeando todas as discussões possíveis na internet – como sempre deveria ter sido. Há quem diga, com muita esperança nas palavras, que é só uma onda, que vai passar, que só dura enquanto estiver dando audiência. Isso é algo que só o tempo irá dizer, mas temos bons motivos para acreditar que não vai ser bem assim.

O principal deles é que, como a pílula vermelha da Matrix, a partir do momento em que percebemos o machismo em todos os lugares, não conseguimos mais não enxergá-lo. É gritante, absurdo e impossível de assistir passivamente. Tornar-se feminista é uma mudança interna poderosa.

Também não dá para negar o papel da internet na disseminação do discurso. Tradicionalmente marginalizado, o feminismo ganhou terreno e relevância. Ficou mais fácil entender que não é sinônimo de mulher mal-amada que odeia homens e queima sutiãs – bravas nós somos sim, temos motivos de sobra para isso. O resultado é o despertar de adolescentes, adultas, idosas que se desconstroem todos os dias e, assim esperamos, reinventam o mundo a sua volta.  

Se houve uma pedra fundamental da atual onda feminista, não sei. O que sei é que de palavra proibida, feminismo virou tema de novela, foi estampado em uma apresentação icônica da maior artista pop do mundo, foi motivo da união de mais e mais mulheres em diferentes esferas.

Beyoncé em apresentação no VMA de 2014 (Foto: Reprodução)

Beyoncé em apresentação no VMA de 2014 (Foto: Reprodução)

Acho sim que feminismo está ‘na moda’, mas nem de longe isso é um demérito. É o que está fazendo o mundo mudar e atraindo olhares para uma causa super nobre. Mesmo estando muito longe de onde desejaríamos, já não podemos mais ser ignoradas. E assim vamos lutando para que a moda não seja passageira.   

Concordo que o capitalismo já começa a se apropriar do discurso feminista para vender, mas é um sinal de que o discurso está se impregnando. Além disso, penso que é legítimo usar todos os meios disponíveis se o objetivo é construir uma sociedade mais igualitária.  

Não acho que a ascensão do feminismo seja algo efêmero, mas só a luta vai assegurar seu futuro. Mesmo se no fim tudo isso for “apenas uma onda”, sou otimista. Nenhum ambiente fica igual depois de ser arrasado por águas poderosas.

Seja como for, temos desafios pela frente que não podem ser ignorados. O principal é não esquecer de mulheres silenciadas dentro do próprio feminismo. Negras, pobres, lésbicas, bissexuais, transexuais, indígenas, ciganas, com deficiência. Todas  as mulheres merecem ter suas reivindicações ouvidas e acatadas. É um dever das feministas pensar em ações que contemplem quem não tem os mesmo privilégios.

Não tenho a menor dúvida de que o mundo está mudando. Ainda que a passos lentos e que não acompanham nossa urgência por igualdade, mas está. E nós estamos mudando o mundo. Nunca duvidemos do nosso poder.