Na segunda-feira, como divulgado pelo Estadão, o Conselho Superior do MPF decidiu que não havia motivos para exonerar Douglas Kirchner, procurador da República, que participa da investigação do ex-presidente Lula. O que pesa contra ele é uma suposta participação em agressão física e psicológica contra a mulher.

Diz a matéria:

“Em um dos casos, Kirchner teria assistido a uma surra de cipó que a pastora da igreja teria dado em Tamires. Também havia a suspeita de que ele deu usou uma cinta para bater na mulher. Tamires teria sido mantida numa espécie de cárcere privado, no alojamento da igreja, com restrições para se alimentar e até para tomar banho.”

A defesa de Kirchner alegou que o caso era uma questão de liberdade religiosa e não cabia aplicação na Lei Maria da Penha – uma lei feita para proteger mulheres de violência doméstica e familiar. Na sessão, foi dito que não havia nada no caso que ferisse a conduta profissional do procurador, que merecia destaque por já ter enfrentado “autoridades das mais poderosas”. Argumentou-se também que ele sofreu lavagem cerebral e que não merecia perder o cargo por isso.

Pois bem, mais uma vez nosso sistema dá o recado muito claro que a vida e a dignidade das mulheres pouco importam neste país. Acusações seríssimas como a de cárcere privado não são suficientes para manchar a conduta profissional de um homem, ainda mais nesse momento delicado que vive a política brasileira. Isso sem falar que tais acusações tratam-se claramente de crimes contra a mulher, e não de liberdade religiosa.

Não me cabe dizer se Kirchner realmente é culpado das acusações, mas é ultrajante que elas não sejam ao menos consideradas no exercício profissional de uma pessoa. Um membro do conselho deu a entender que o profissional pode ter sofrido “transtorno mental”, e mesmo assim ele é julgado apto para seguir com uma das mais importantes investigações da história recente do país. A mensagem que fica é que tanto faz, violência contra a mulher não é acusação suficiente para sequer incomodar alguém com um cargo tão crucial nesse momento da política.

Não que isso seja novidade no Brasil. Ainda na época da ditadura, muito antes de Lei Maria da Penha, os movimentos de esquerda recusavam-se a abrir espaço para as mulheres. O feminismo efervescia em todo o mundo, inclusive aqui, embora encontrasse muita resistência dos autodenominados “progressistas”, que não admitiam que havia um outro inimigo a ser combatido além dos militares. As mulheres ouviam que primeiro deveriam se preocupar em acabar com a ditadura, depois lidariam com essas questões menos importantes. Infelizmente, é assim em quase todos os movimentos revolucionários e de mudança social. Até neles somos sistematicamente silenciadas como se nossos problemas valessem menos.

Vale lembrar também do pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PMDB, Pedro Paulo Carvalho, que já admitiu ter agredido a mulher. São exemplos que mostram que no vale tudo da política brasileira, as mulheres são sempre deixadas de lado. Tanto através da baixíssima representação política como do total descaso com nossas pautas, com nossa vida e dignidade.

É preciso lembrar que, embora a composição de nosso Congresso não seja a mesma da sociedade, nosso modo de fazer política diz muito sobre ela. O tratamento dado à mulher nas esferas de poder também. É triste constatar esse cenário tão primitivo em pleno 2016, ainda mais porque, pelo andar da carruagem da política brasileira, isso não vai mudar tão cedo. Mas não custa mandar o recado: ou o progresso é feminista – negro, LGBT, indígena e inclusivo –  ou não é progresso.