A maioria das notícias sobre o ataque a Ana Hickmann, no último dia 20, tratou o agressor como um fã da apresentadora. Obcecado e extremado, mas ainda um fã. Dar essa nomenclatura ao autor do ataque não só é uma ofensa aos fãs de qualquer coisa como é ainda uma maneira de disfarçar o machismo e a violência generalizada contra a mulher que sempre assolou este país.

Infelizmente, disfarçar machismo é uma especialidade por aqui. No Brasil, custamos a entender crimes de violência contra a mulher como o que eles realmente são. Historicamente, o assassinato da mulher pelo parceiro era tratado como crime passional ou em defesa da honra (quando o marido foi traído, por exemplo). E por muitos anos os agressores e assassinos foram inocentados com este argumento. A situação só melhorou com a Lei Maria da Penha, em 2006, mas mesmo hoje há juízes que ainda não entenderam o conceito de violência de gênero e dão interpretações bizarras à lei.

E não para por aí: foi só em 2009 que o estupro deixou de ser entendido como um crime contra os costumes para ser caracterizado por um crime contra a dignidade sexual. O que não significa que hoje as vítimas não sejam culpabilizadas pela violência que as acomete. O tamanho da roupa, o local e o grau de relacionamento com o agressor são fatores que, para uma considerável parcela da nossa população, relativizam a gravidade e a legitimidade da violência sexual. Basta lembrar da pesquisa do IPEA de 2014, onde 26% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que uma mulher que usa roupas que mostram o corpo merece ser atacada.

Mas o que isso tem a ver com o ataque à Ana Hickman? Oras, tudo. Dizer que quem atentou contra sua vida era um fã é invisibilizar todo o problema de gênero que há aí. Fãs admiram, fãs amam, fãs não matam.  Não se espera violência partindo de fãs, assim como não se espera que um marido ou parceiro íntimo agrida sua parceira, mas ainda assim 1583 mulheres foram mortas pelo parceiro ou ex-parceiro em 2013*. No caso da apresentadora, o que as redes sociais do agressor mostram é uma obsessão muito parecida com a cometida pelos crimes “passionais” de ontem e hoje. Rodrigo de Pádua exibia um conteúdo perturbador e recheado de imagens de adoração e ameaças à Ana Hickmann. Conteúdo que dificilmente seria igual se o mesmo fosse fã de um homem.

“O John Lennon é homem e foi morto por um fã!”, argumentam alguns. É verdade, embora eu discorde muito da nomenclatura de “fã” nesse caso. Mas assim como em outras esferas da vida, a relação fã-ídolo também é atravessada pelas relações de gênero. A obsessão doentia por Ana Hickmann não é diferente da que milhares de mulheres atravessam todos os dias.

Sejamos claros: Ana Hickmann foi vítima de stalking, perseguição e tentativa de homicídio. Crimes previstos no Código Penal justamente por não atingirem somente uma pessoa. É hora de dar o nome certo: Ana Hickmann foi uma vítima do machismo e o atentado contra sua vida teve todas as nuances de violência de gênero. Usar eufemismos nesse caso não ajuda a ninguém. Pelo contrário, normaliza o que não pode ser normalizado.

*Dados do Mapa da Violência 2015, disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/

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