Você, mulher, está andando na rua e vai passar em frente a um bar lotado de homens. Já imagina que vai sofrer assédio e então, em um mecanismo de defesa, se retrai e passa o mais rápido possível por aquele ambiente. Eu faço isso, tantas outras mulheres também. Não reagimos à violação do nosso direito ao corpo, ao espaço público e à cidade.

Fazemos isso porque nos habituamos ao assédio desde muito novas, porque é uma ocorrência tristemente corriqueira, porque não queremos perder tempo e prolongar uma situação incômoda. E também porque, é claro, temos medo de reagir. Nunca sabemos como vai ser a reação do assediador, que pode variar desde xingamentos verbais a um agravamento do assédio, perseguição, ameaças ou consumação de estupro. Resumindo, não é fácil ser mulher e não é fácil reagir a uma cantada.

Mas há maneiras de tornar o cotidiano menos tortuoso em relação ao assédio, já que ele em grande parte se alimenta da certeza de que as mulheres serão submissas e nada farão. O assédio é, em essência, uma demonstração de poder – não é à toa que não o sofremos quando estamos acompanhadas de um homem. Logo, não há nada mais apavorante para um homem do que uma mulher com o mesmo poder do que ele.

Não temos que pedir desculpa para ninguém para andar na rua, mas é muito difícil transformar esse pensamento em ação. Eu também ainda não consigo. Por isso, lanço aqui o convite para que todas as mulheres lendo isso tentem, pouco a pouco, mudar sua postura. Chega de abaixar a cabeça na rua, eu sou tão merecedora dela quanto os homens. E mais merecedora do que os que usam o espaço para violentar outras pessoas.

São inúmeras as ações possíveis. No meu círculo as mulheres adotam táticas como usar óculos de sol, mostrar o dedo do meio, ter um apito em mãos, um spray de pimenta, responder com um palavrão, olhar no olho do assediador. O que funciona para cada pessoa varia, as vezes só o fato de ser capaz de se defender já muda a postura de uma mulher. O denominador comum de todas essas ações é a cabeça erguida, como nunca deveria ter deixado de ser.

É possível se sentir mais confiante e segura na rua, só precisamos descobrir nosso caminho. Não, não vamos extinguir o problema do assédio e infelizmente também não vamos deixar de sentir medo. Afinal de contas, a rua continua sendo um espaço perigoso para as mulheres. Por mais empoderada que eu seja, é muito improvável que vá responder um assédio sozinha à noite numa rua pouco movimentada. Mas não tenho a menor dúvida que mulheres que circulam sem pedir desculpas e que não baixam a cabeça para assédio incomodam. Certamente vamos constranger assediadores e, com esperança, fazê-los pensar duas vezes antes de repetir o ato.