Uma das ferramentas mais eficazes para manter as mulheres sob controle é impedir que elas percebam a força que têm, tanto individualmente ou como grupo. Temos toda a História como prova de que o único beneficiário de uma sociedade em que as mulheres são obedientes e desunidas sempre foi o patriarcado. Quando nos juntamos, dividimos nossas experiências com segurança, criamos empatia por outras mulheres que vivem diferentes contextos e resgatamos nossa força para mudar o que nos oprime.

Um ditado bastante difundido no movimento feminista diz: “Mulheres são como as águas, crescem quando se encontram”. Está corretíssimo. Um dos maiores feitos da atual onda feminista é resgatar essa consciência e proporcionar a união das mulheres, também chamada de sororidade. É graças a isso que reivindicamos alguns direitos (ou impedimos retrocessos), criamos forças e redes de apoio para sair de relacionamentos abusivos e violentos e que voltamos a ser senhoras de nossas vidas e nossos corpos. Faz sentido: quem sente uma opressão na pele não acha que as outras reclamações são “mimimi” ou frescura e se mostra muito mais disposto a ajudar.

Na era da internet, não faltam ferramentas e caminhos para que esses encontros aconteçam. No Facebook pipocam grupos para compartilhar experiências e apoio em praticamente todo aspecto do universo feminino: o medo de voltar sozinha para casa (já conhece o Vamos Juntas?), relacionamentos, contracepção e ciclos hormonais, sexualidade etc. Já vi gestos lindos nascerem daí: mulheres pagando pílula do dia seguinte para desconhecidas, assistência jurídica, hospedagem. Há também cada vez mais coletivos feministas nos colégios, universidades e os formados por profissionais de diversas áreas. Mulheres em tecnologia, mulheres em exatas, mulheres no jornalismo, mulheres na ciência. Em comum, a consciência de que precisamos uma das outras para crescer.

Engrossando esse coro, foi lançada nessa semana a Comum, uma comunidade feita por mulheres, para mulheres e um espaço de acolhimento e troca. Fundada por Anna Haddad, Carol Patrocínio e Giovana Camargo, a Comum é uma plataforma de empoderamento em si, não ligada a nenhuma rede social. É uma iniciativa muito boa e que junta produção de conteúdo, cursos e encontros presenciais. A ideia, segundo as fundadoras, é dar foco às mulheres, empoderar e gerar referências femininas.

A nova plataforma é exclusiva para quem se identifica como mulher e conta com um modelo de assinaturas para garantir a segurança do espaço (além da sobrevivência do projeto, é claro). Parte do conteúdo é aberta, mas quem quiser ter acesso a tudo pode desembolsar R$40,00 mensais, que garantem acesso ao fórum de trocas e dão descontos nos encontros presenciais. Há uma linda alternativa chamada “Financie uma mina”, de R$80,00 por mês. Como o nome indica, quem optar por isso paga o equivalente a duas mensalidades, para que uma mulher com menos condições financeiras também possa usufruir do conteúdo.

Seja através do Comum, de grupos do Facebook ou encontros de bairro, as mulheres devem se unir. Poucas coisas abalam mais a estrutura de uma sociedade do que estarmos juntas e empoderadas.

Aos homens que me leem, é necessário empatia para compreender a importância dos espaços auto-organizados e exclusivos e a humildade para entender que nosso gênero faz diferença em uma série de experiências ao longo da vida. Às mulheres, que não percamos tempo e ao menos experimentemos grupos para compartilhar experiências. Há muito o que aprender umas com as outras.

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Em tempo: Nos dias 19 (Rio de Janeiro) e 25 (São Paulo) de maio, acontece o lançamento do livro “#MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes“, do coletivo Não Me Kahlo. O livro, que sai pela editora Edições de Janeiro, resgata a hashtag #MeuAmigoSecreto para desconstruir discurso machista que serviu de inspiração para o movimento. Cada artigo começa com uma denúncia feita através do #MeuAmigoSecreto e parte para discutir pontos como feminismo negro, machismo no mundo geek, cultura do estupro e sexualidade feminina.