Iana Chan em curso de programação para mulheres (Foto: Gabriela Pires/Divulgação Programaria)

No último fim de semana vazou um manifesto escrito por um engenheiro homem do Google. O documento, intitulado “A bolha ideológica do Google” basicamente diz que a empresa incorporou o discurso “politicamente correto” e “esquerdista” ao tentar promover a paridade de gênero na área de tecnologia através de diversas iniciativas. O mesmo Google que, lembrando, pagou uma multa ao governo americano por não entregar os dados sobre a distância salarial entre seus funcionários homens e mulheres.

As mulheres são apenas 15,53% do total de alunos dos cursos de computação no Brasil (2013).

O mesmo engenheiro, que aparentemente foi demitido por violar a conduta da empresa, diz com toda a certeza do mundo que as diferenças biológicas entre homens e mulheres são inquestionáveis e que elas são as responsáveis pela diferença no número de profissionais homens e mulheres na área (leia aqui, em inglês). Completa ainda que a natureza faz dos homens líderes e ambiciosos natos e das mulheres seres mais fracos e que não almejam crescimento na carreira. Sim, em pleno 2017.

É como dizem por aí: se você acha que mulher faz escândalo, experimenta tirar o privilégio de um homem. Nesse caso, a hegemonia em uma área que foi inclusive inaugurada por uma mulher (Ada Lovelace).

Confira aqui uma linha do tempo de mulheres que fizeram história na tecnologia.

Já há alguns anos cresce o movimento de mulheres na tecnologia. No Vale do Silício, elas denunciam o sexismo, o assédio sexual e lutam para aumentar a participação nas grandes empresas, que ainda contratam majoritariamente homens brancos nos cargos técnicos. Também não param de crescer as iniciativas para ensinar programação às meninas e mulheres e estimulá-las em carreiras científicas e da área de exatas. No Brasil, a primeira iniciativa que tive contato foi a Programaria, criação da amiga de longa data Iana Chan, que se juntou a outras designers e jornalistas para empoderar mulheres com tecnologia e programação. Além de fomentar o debate e inspirar mulheres a se apropriarem de tecnologia, promove oficinas e cursos de programação para mulheres. Até hoje, já foram 2520 inscritas nos cursos e 90 alunas formadas.

Conversei com Iana a respeito das declarações do (ex?) funcionário do Google:

 

Nana: O funcionário do Google argumenta que a desigualdade de gênero na área de tecnologia tem motivação biológica e que as mulheres não podem ser tão boas programadoras. O que você acha disso?

Iana Chan: O memorando é completamente simplista e enviesado. O funcionário não mostrou nenhuma evidência das coisas que diz, é apenas um “eu, homem branco, não posso mais falar minhas ideias absurdas”.  

Falar que as mulheres não podem ser tão boas é uma das coisas que mais as afasta da tecnologia. Existe essa narrativa de que as mulheres são mais cuidadoras e mais empáticas e que por isso elas não vão para a área de ciência, matemática, engenharia e tecnologia, quando na verdade isso acontece justamente por conta de estímulos que as meninas recebem quando crianças – que são diferentes dos recebidos pelos meninos. Os brinquedos determinam diferentes papéis sociais: à menina, com a boneca e a vassourinha, o lugar doméstico de mãe e dona de casa. Ao menino, videogame, blocos de montar, o mundo e as conquistas.  Na verdade, o fato de as mulheres não irem para a área de tecnologia nada mais é do que uma consequência da educação que a gente recebe e não uma evidência de que as mulheres não se interessam por tecnologia.

A própria história prova que isso é mentira: o primeiro ser humano a escrever um algoritmo a ser processado por uma máquina computacional foi uma mulher. O termo Engenharia de Software foi cunhado por uma mulher (Margaret Hamilton, que escreveu o software que nos levou para a Lua). Infelizmente a história dessas mulheres não é nada divulgada e não é à toa: existe um silenciamento da contribuição das mulheres, mas elas provam que, sim, somos capazes de sermos tão boas programadoras quanto os homens. Há um estudo que mostra que os códigos submetidos por mulheres são mais aceitos, mas apenas quando elas não declaram seu gênero, o que é muito grave.  

A tecnologia também é das mulheres! (Foto: Divulgação Programaria)

Nana: Quais os maiores obstáculos ainda hoje para atingir a igualdade de gênero na área de tecnologia?

Iana Chan: Ainda existem muitos mitos em relação a isso, principalmente o de que elas não vão para a área simplesmente porque não querem, já que “não é proibido estudar ou trabalhar na área”. Esse argumento é muito raso e simplório, temos que entender o que é interesse e como ele é dado socialmente. Outro ponto que ouço muito é o de que a mulher tem que ignorar essas críticas e se resolver, ir mesmo assim. Isso é muito cruel, é uma forma de culpabilização da vítima e de isenção da sociedade, como se ela não fosse desigual e não tivesse responsabilidade quando perpetua os estereótipos de gênero. É uma visão triste porque não considera também a possibilidade de promover mudanças estruturais.

 

Nana: E nas empresas? Várias já estão implementando políticas para corrigir essa desigualdade.

Iana Chan: O problema não se resolve apenas contratando mulheres. Temos basicamente os problemas de atração e retenção. Será que o processo de contratação é desenhado para enxergar as potencialidades que mulheres e outros grupos podem oferecer? É sabido que existe um viés inconsciente que dá dois pesos e duas medidas na avaliação das competências profissionais de candidatos com gênero, orientação sexual, cor e backgrounds diferentes, – e ele precisa se tornar consciente! É o primeiro passo para conseguir formas melhores de recrutamento. Depois é preciso pensar qual o ambiente que a mulher vai encontrar na empresa. Ela vai ser acolhida ou vai ser tratada que nem a Susan Fowler, do Uber, que sofreu assédio sexual e o RH disse que não poderia fazer nada porque o engenheiro era muito bom? A empresa está disposta a mudar sua cultura? Mudar dá trabalho, é um grande desafio.

Outro ponto é achar que diversidade é baixar o nível e contratar pessoas piores. Isso também é muito raso, diversos estudos mostram que diversidade é positiva pras empresas mesmo do ponto de vista financeiro, porque se o time é diverso, você consegue pensar diferente e inovar.  

É importante dizer que não faz sentido falar em meritocracia se não há igualdade de oportunidades e direitos, e as políticas afirmativas tentam acelerar esse processo que, se fosse acontecer naturalmente, levaria anos para alcançarmos uma relação com maior de equidade. Quem acha que oferecer mentorias para grupos excluídos (mulheres, negros, etc) é discriminatório ignora completamente esse contexto, não reconhece seus privilégios e se coloca no papel de vítima, numa total inversão de papéis. O objetivo da diversidade não é ser autoritária, é permitir as livres escolhas, que as mulheres tenham estímulos para experimentar e desenvolver seus interesses e que, caso desejem estudar ou seguir nas carreiras de tecnologia, não tenham que vencer 1 milhão de obstáculos a mais do que os homens. Queremos que as mulheres sejam respeitadas e possam se desenvolver num ambiente de acolhimento e respeito. É o mínimo. 

 

Nana: O que as mulheres que procuram a Programaria relatam, em geral?  

A gente costuma perceber que a dificuldade das mulheres com tecnologia começa antes de elas tentarem aprender. Muitas param, não vão atrás das oportunidades porque acham que o lugar não é pra elas, que não têm capacidade, que a área é hostil para as mulheres (e de fato é). Esse manifesto do Google mostra como isso é real, que existe uma visão muito distorcida sobre o direito das mulheres. Não é questão de capacidade e nem de interesse, é essa narrativa cultural que diz pras mulheres os lugares que elas podem ou não ocupar.

O relato mais comum é de alguém que sempre teve curiosidade e quis aprender, mas nunca se sentiu motivada e incentivada a buscar esses caminhos. Percebo que, para muitas, o fato de oferecermos curso de mulheres para mulheres já cria um ambiente em que elas se sentem confortáveis e bem-vindas e fortalecidas para ocupar esse espaço. Nós precisamos contar para todas as mulheres que elas são incríveis e capazes de coisas que nem imaginam!

 

Confira outras iniciativas de empoderamento de mulheres na tecnologia e programação:

PretaLab

Minas Programam

Reprograma

UPWIT


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