O livro “A Revolução das mulheres”, lançado em abril pela editora Boitempo, traz uma coletânea de textos feministas das pensadoras russas pré e pós Revolução. Neles, elas comentam sobre como as mulheres se beneficiaram da Revolução Russa, analisam a situação de seu gênero no país e enfatizam não só a importância das mulheres para o triunfo do socialismo mas também a origem trabalhadora do 8 de março, posteriormente reconhecido como Dia Internacional das Mulheres.

A meu ver é uma coletânea instigante e muito atual,  embora a maioria dos textos  esteja naturalmente marcada pela efervescência política da Rússia e pela paixão em relação ao novo regime do país. De qualquer modo, é uma leitura que resgata diversos pontos importantes para o feminismo até hoje, como a prostituição, liberdade sexual e divisão de tarefas.

A organizadora Graziela Schneider, pesquisadora da USP na área de Literatura e Cultura Russa, compartilhou comigo alguns questionamentos levantados pelo livro e sobre como as mulheres russas influenciam o feminismo até hoje. Confira:

Como as mulheres russas influenciaram o feminismo ocidental?

Graziela Schneider: Não diria que houve influência ou contribuições diretas, devido ao contexto e à época, mas sim inspirações e reverberações. Entre outras contribuições emblemáticas, está a própria manifestação expressiva de milhares de mulheres, em 1917, decisiva para as Revoluções de Fevereiro e de Outubro. Há no livro dois textos de Alexandra Kollontai que tratam justamente da da contribuição das mulheres para as Revoluções e da questão da nova mulher, emancipada economicamente por meio de seu trabalho.  

Você diria que a revolução russa foi revolucionária para a pauta das mulheres?  

Graziela Schneider:  Ou que as mulheres foram revolucionárias para a Revolução Russa. Elas eram a própria revolução. Kollontai fala sobre isso em um texto sobre o 2° Dia Das Mulheres realizado na Rússia, em 1914.

“Queremos conduzir nossa ação de forma que o dia da mulher nos aproxime do objetivo principal: a inevitável e fervorosamente desejada revolução social.” – Alexandra Kollontai

A Revolução foi revolucionária para as mulheres na medida em que  elas foram não apenas participantes ou protagonistas, mas tiveram a iniciativa, atuação imprescindível e decisiva, além de evidenciarem sua expressão, de se apoderarem das suas próprias narrativas das revoluções. Elas transformaram-se por meio de suas lutas e conquistas.

Pode citar como a Rússia foi pioneira para o direito das mulheres?  

A pátria Mãe chama (1941)

Graziela Schneider: É importante notar que as mulheres da Rússia e de outros lugares sempre lutaram pelo sufrágio e outros direitos desde pelo menos o século XVIII, não se tratando de uma competição por pioneirismos. Inclusive o fato de que em alguns estados ou países as mulheres alcançaram seus direitos foi um alento para as mulheres de outras regiões (como é mencionado no livro). O que há é uma narrativa oficial e outras narrativas menos conhecidas, como a das mulheres negras, indígenas, operárias, camponesas etc. A própria história dos movimentos de mulheres na Rússia só foi ser mais lida, pesquisada e discutida no Ocidente a partir da década de 1950.

Entre os pioneirismos russos para as mulheres estão: a Rússia foi um dos primeiros países em que elas conquistaram o direito de votar e de se candidatarem sem restrições, ainda em 1917 (antes disso apenas Finlândia permitia o voto sem restrições); em 1918 a Constituição Soviética declara de forma explícita direitos iguais para homens e mulheres; foi também o primeiro país do mundo a legalizar o aborto, em 1920; e em 1942 mulheres podem ingressar na carreira militar de maneira formal. Valentina Terechkôva foi a primeira mulher a ir para o espaço, em 1963, e além disso as mulheres conquistaram direitos relativos à maternidade e a construção de creches, refeitórios e lavanderias públicas.

Muitas mulheres do início do século consideraram que os objetivos do movimento de mulheres haviam sido atingidos depois da conquista do sufrágio, mas na Rússia uma das questões era a verdadeira transformação social e política da mulher e, principalmente, sua total emancipação como ser independente, em especial por meio da igualdade de direitos, do reconhecimento da importância do seu trabalho, também igualitário, e da liberdade sexual. Enquanto a chamada 2ª onda de feminismos em geral se refere às décadas de 1960 e 1970, na Rússia esse segundo momento acontece já no início do século XX, justamente entre as Revoluções de 1905 e 1917 e a década de 1920.

Você acha que essa concepção do feminismo totalmente atrelado à luta de classes ainda é atual?

Graziela Schneider:  O livro não mostra apenas uma concepção ou um feminismo, e portanto não se trata de ser totalmente atrelado à luta de classes. Menciona-se essa diferença com um feminismo liberal ocidental de então e não de correntes atuais. Há textos desde 1907 até 1935 e há autoras de várias vertentes, inclusive da liberal da época, filiadas ou não a partidos, etc. O que tenho ouvido das mulheres que leram os textos é que poderiam, infelizmente, ser textos atuais, então eu diria que infelizmente ainda precisamos desses feminismos e dessas autoras, mas é necessário sempre acrescentar.

Você acha que a origem trabalhadora do 8 de março é apagada?

Graziela Schneider: Sim e não, depende do âmbito e do ponto de vista. Explicando: se levarmos em conta que desde a década de 1970 estão aumentando pesquisas e trabalhos sobre a origens socialistas do dia das mulheres e sobre as manifestações e greves de trabalhadoras nos séculos XIX e XX eu diria que não. No Brasil, a relevância das trabalhadoras russas e os protestos de 1917 passaram a ser mais mencionados nos últimos dois anos. Mas sim se considerarmos que nas escolas universidades e imprensa pouco se falava do assunto até pouco tempo atrás e, principalmente, porque as trabalhadoras ainda não são muito pesquisadas. E isso sem esquecer que mesmo hoje, algumas pessoas da sociedade civil e até de governos ainda parabenizam, presenteiam e encaram a data como um dia de comemoração e não um dia de luta, protesto e reivindicações trabalhistas.

 

Linha do tempo – Origens socialistas do Dia Internacional da Mulher:

1910 –  II Conferência Internacional de Mulheres, em Copenhague. Clara Zetkin, sugere uma data fixa e propõe o  8 de março como dia de luta pela emancipação das mulheres;

1913 –  I Dia Internacional das Trabalhadoras pelo Sufrágio Feminino, em Petrogrado, que sofreu grande repressão (“Na Rússia também haverá um dia da mulher!”, tradução de Cecília Rosas);

1914 – O dia das mulheres foi realizado no dia 8 de março (na Rússia, 23 de fevereiro).

1917 – Início da Revolução de Fevereiro (março no calendário ocidental).

1921 – Conferência Internacional das Mulheres Comunistas. Indica-se o dia 8 de março como data oficial com referência ao ato das mulheres de 1917.

1922 – O Dia Internacional da Mulher passa a ser realizado nesta data

1977 – Reconhecimento pela ONU do 8 de Março como o Dia Internacional das Mulheres


 Serviço:

A revolução das mulheres – emancipação feminina na Rússia soviética
Organização: Graziela Schneider
Editora: Boitempo
Páginas: 276
Preço: R$ 54,00


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