Foto: Tânia Rego/ Agência Brasil

Este não é um texto pra você que acha certo agredir ou discriminar pessoas LGBT e sim para aqueles que entendem o absurdo disso, mas continuam achando que o agressor é um gay enrustido que não aceita sua própria sexualidade e desconta em violência. Não caia nesse discurso, isso é a maior mentira. Homofóbico (a) é homofóbico porque nosso meio é preconceituoso mesmo.

É assim: nós, enquanto sociedade, somos ensinados que ser gay, bissexual, lésbica ou trans é anormal. É uma aberração, fere a lei de Deus e é contra a natureza. Com muito esforço, somos capazes de “aceitar um homossexual apesar de suas escolhas” (frase que já ouvi), mas eles também não precisam ficar se expondo. Tudo bem ser gay ou lésbica, desde que dentro de casa.

A gente acha que qualquer manifestação de afeto não heterossexual (seja na vida real ou na novela) é desnecessária. A gente foge de LGBT assumido que nem o diabo foge da cruz e ainda assim, com tudo isso, a gente JURA que homofóbico é um gay enrustido.

Gente, não tem como ter tanto LGBT assim no mundo.

O principal problema de dizer que um homofóbico é um gay enrustido é apagar completamente o papel da sociedade e da criação desigual que recebemos, que reserva a alguns grupos o posto de gente que vale menos. Quando fazemos essa errônea associação de violência e sexualidade reprimida, transformamos em pessoal um problema totalmente coletivo.

Homofobia não é um problema psicológico, pessoal e intransferível, é uma construção histórica influenciada pelo ambiente. Nós temos leis e políticas homofóbicas, temos uma educação excludente e uma cidadania pela metade. Isso não é trabalho de gays enrustidos em massa agindo contra eles mesmos, é preconceito e dificuldade de aceitar a diversidade do ser humano. E negar a violência cotidiana que sofremos é muito irresponsável e prejudicial para nossa luta.

E ainda tem outro aspecto, que eu nunca tinha refletido até um amigo LGBT me chamar a atenção: quando um hetero diz que homofóbico é gay enrustido, ele se isenta totalmente de responsabilidade. Esse raciocínio desloca o problema para os próprios LGBT, “eles que se resolvam entre si”, como se os não-LGBT não tivessem naaaaada a ver com isso, o que é exatamente o oposto do que acontece. É o mesmíssimo raciocínio de quem fala que “tem muita mulher machista”. Ambos dizem nas entrelinhas: “olha, vocês se resolvam aí e só depois cobrem responsabilidade de mim”.

Estou dizendo que não existam, de fato, pessoas LGBT (e não só homens gays) que neguem sua identidade e respondam a isso de uma maneira agressiva, provando a heterossexualidade através do preconceito? De jeito nenhum, até porque tem muita pesquisa focada em descobrir mais dessa relação. Mas resumir um complexo arranjo social a apenas isso é pautar a regra por sua exceção. É raso, irresponsável e desonesto.

E mesmo que todos os homofóbicos fossem gays enrustidos, esse fato só reforçaria a ideia de que a sociedade é que precisa mudar, e não os indivíduos isoladamente. Afinal de contas, não haveria motivo para ser enrustido se não houvesse preconceito do lado de fora. Se não houvesse necessidade de afirmar a heterossexualidade para poder ser considerado gente.

Eu entendo que o argumento é tentador e que pode ser verdadeiro em alguns casos, mas fica o apelo para que não mais o utilizemos. O que precisamos é de combate ao preconceito, de políticas públicas que garantam direitos àqueles que sempre foram negados. Não precisamos de ainda mais culpabilização que não leva a lugar nenhum. A única coisa realmente enrustida aqui é o preconceito.


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