Arte: Be Lucchesi

Arte: Be Lucchesi*

“O que mais querem as mulheres? Já trabalham e já votam, agora é mimimi”

“As feministas propõem a superioridade das mulheres em relação aos homens”

“As mulheres querem/usufruem de privilégios nas leis”

 

Você já leu ou ouviu essas perguntas por aí? É provável que sim. São algumas das frases mais utilizadas por quem quer, de má-fé ou não, diminuir a importância do feminismo. E, de tão difundidas, acabam causando confusão sobre a razão de ser do nosso movimento.

Vamos por partes: feminismo quer igualdade. Sempre quis. Igualdade de direitos, de responsabilidades. Quer garantir que todas as mulheres estejam plenamente inseridas na sociedade SEM sofrer preconceito ou discriminação em função de ser mulher. Lutamos pelo mínimo, por coisas que nem deveriam ser motivo de disputa, mas que, já que não ocorrem naturalmente na nossa sociedade, iremos atrás com todas as nossas forças.

Quando alguém diz que nós já podemos votar e trabalhar e portanto não temos mais motivos para lutar está sendo ou muito atrasado ou muito cínico. São conquistas que datam dos séculos XIX e XX e quem pensa isso ficou com a cabeça nessa época. É possível que alguém ache que poder trabalhar fora de casa e votar são os únicos direitos que alguém pode ter? Você, homem, conseguiria viver só com essas duas permissões?

Trabalhar e votar foram marcos históricos sim – para mulheres brancas, diga-se de passagem, já que para as negras o trabalho era compulsório e o voto veio com muito mais atraso. Mas trazem outras questões igualmente urgentes de ser resolvidas. Não é só trabalhar: é ganhar o mesmo salário que um homem branco, é não ser assediada. Não é só votar: é ser votada, não ter obstáculos culturais para chegar ao poder, é ter um banheiro para usar (coisa que nosso Senado não tinha até 2016).

Já os que falam que o feminismo (e por tabela as feministas) propõe a superioridade das mulheres precisa urgentemente de um dicionário. Está escrito com todas as letras que não é isso. Feminismo é igualdade. O que acontece é que nossa sociedade é tão doente que vê a igualdade como ameaça, é uma sociedade tão injusta que a igualdade se põe no horizonte como superioridade. Não é isso, mas é sim uma tomada de poder, porque colocar todo mundo no mesmo nível significa que ninguém vai ter privilégio. Quem é privilegiado hoje (homem) vai deixar de ser.

E por falar em privilégio, há quem jure que nós é que somos as privilegiadas pelas leis, já que existem legislações específicas contra a violência, discriminação, etc. Vou contar um segredo: meu maior sonho seria viver num mundo em que essas leis não fossem necessárias . Elas só existem porque nossa sociedade foi incapaz de conviver pacificamente com as mulheres. Então não, essas leis não são privilégios.

“Ah, mas não tem lei José da Penha”, podem pensar alguns. É verdade, mas a lei Maria da Penha, que carrega o nome de uma mulher muito corajosa, não se aplica para qualquer agressão homem-mulher. Ela é específica para violência de gênero que ocorre no círculo íntimo e familiar, onde há historicamente MUITA desigualdade. E tem mais: a lei tem um caráter educativo muito mais importante do que o punitivo. Foi sancionada com o horizonte de extinguir os aparatos sociais que autorizam e banalizam a violência e a desvalorização das mulheres. Repito: não, não é uma lei de privilégios.

Uma tradicional definição do feminismo diz que ele é “a ideia radical de que as mulheres são gente”. E ser gente significa ter direitos, ter autonomia, ser tratado com respeito e dignidade. Ter liberdade e viver livre de discriminação e violência. É isso que nós reivindicamos desde sempre e continuaremos reivindicando enquanto nossos direitos básicos nos forem negados. Simples assim. Não pedimos favores, exigimos direitos.


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*Conheça o trabalho de Be Lucchesi aqui.