Ilustração: Natalia Belizario Silva

Ontem mesmo estava dentro do ônibus procurando meu RG na bolsa e, como não achava de jeito nenhum, tirei tudo que estava dentro. Na hora do absorvente dei aquela olhada para o lado e, não tendo ninguém perto, tirei também. Me culpei muito por essa olhadinha absolutamente instintiva e mais forte do que eu, ainda mais porque eu sei que não tem nada de errado, que é um tabu besta e eu já sabia que ia escrever um texto sobre isso. Mas ainda assim eu olhei.

E digo mais: não só olhei, como, depois de tirar o absorvente da bolsa, deixei ele meio escondido caso alguém aparecesse. “Por que raios ainda não coloquei isso na necessaire?”, pensei, enquanto me culpava DE NOVO por pensar isso.

O absorvente e a menstruação são totalmente associados ao feminino pela nossa cultura. E ao feminino somente, então tem que esconder em público. Tem que ir de mochila no banheiro trocar absorvente só pra ninguém te ver carregando um, tem que inventar mil gírias pra não falar o termo, tem que contar com a amiga pra dar aquela conferida se não manchou, tem que fingir que nada está acontecendo mesmo que você esteja urrando de cólica, diarreia, dor nas costas ou dor de cabeça. Ou tudo isso junto.

O fato de esse ser um assunto que só diz respeito a mulheres (se você é homem e está lendo isso, parabéns!) traz todas essas implicações. Nossas dores não são levadas a sério, temos que fingir que nosso corpo não passa por nenhum processo intenso quando na verdade ele passa por isso todo santo mês. Até as propagandas de absorvente mostram mulheres inabaláveis pela menstruação, o que qualquer pessoa que já menstruou sabe que não é verdade. Tanto não é verdade que há até conversas no mundo todo para que as mulheres tenham folga em dia de menstruação, ideias que sinceramente eu não tenho opinião formada. Mas o fato é: a menstruação acontece mesmo que a gente finja que não.

Só que é um assunto de mulheres. E por ser um assunto de mulheres, ele é supérfluo, marginal, menos importante. Não é coincidência nenhuma que, num mundo em que a política é feita por homens e menstruação seja assunto “de mulher”, os absorventes tenham impostos gigantescos e que NÃO ESTEJAM inclusos em kits básicos de higiene. Eles são literalmente tidos como supérfluos. Meu amigo, se você diz que absorvente é supérfluo você realmente NUNCA CHEGOU PERTO DE MENSTRUAÇÃO nessa sua vida.

É um detalhezinho tão detalhe, parece reclamação de classe média, mas que em países de África e Ásia faz as meninas abandonarem a escola, ou no mínimo não frequentarem durante os dias da menstruação. Sem absorventes, banheiros dignos e cuidados básicos de saúde, mas cheias de estigmas e tabus, elas não têm como circular socialmente durante esses dias do mês. É um pequeno fator que contribui para a desigualdade de gênero em larga escala.

Ao mesmo tempo, por ser um tabu e pertencer ao universo do feminino – embora existam homens que menstruem – a menstruação traz com ela uma sororidade difícil de colocar em palavras. É quando as desconhecidas se emprestam absorventes, remédios anti-cólica, quando todo mundo dá aquela olhadinha pra checar que está tudo certo. É lindo, é bacana, mas não devia ser assim. Um processo natural e saudável dos corpos não tinha que ser encarado com tanto nojo e repulsa. E não se enganem, isso só acontece porque é um processo associado ao feminino.

Eu menstruei pela primeira vez no dia que meu irmão operou do coração, então minha mãe estava no hospital com ele. As duas primeiras pessoas para quem eu contei foram meu pai e meu outro irmão, que foram incríveis dentro de suas possibilidades. Eu não cabia em mim de vergonha de contar que tinha menstruado, passado por um ritual tão simbólico em quase todas as culturas (até onde eu saiba). Ainda mais contar para um homem. Eu não tinha ideia de como era menstruação, mas sabia que tinha que contar para uma mulher e que, em algum nível, tinha que ter vergonha de contar para meu pai. Meu ex-namorado, embora fosse um cara bacana, se contorcia ao ouvir a palavra menstruação, não sabia muito como lidar.

Por que raios metade do mundo simplesmente ignora um processo regular, normal e muito importante da outra metade?

Enquanto eu estava no ônibus, fiquei pensando o que responderia se aparecesse alguém reclamando ou olhando torto. Só consegui pensar em uma resposta: “Oi moço, você esconderia seu refil novinho de lâmina de barbear? Porque é a mesma coisa”. Depois achei bobagem minha, porque se um homem visse aquilo não ia ter nem coragem de abrir a boca para falar de menstruação.

O que me motivou a escrever esse post foi uma campanha da Plan International, que atestou o tabu da menstruação após uma pesquisa no Reino Unido. A pesquisa trouxe que dois terços das mulheres não se sentem confortáveis ​​para falar sobre seu ciclo menstrual com o pai ou amigos do sexo masculino. A pesquisa no Reino Unido ainda apontou que 1 em cada 10 mulheres não se sente à vontade para falar sobre o tema com suas amigas, 1/4 delas com suas colegas no trabalho e que apenas 1/3 das mulheres se sentiria feliz por falar sobre isso com seus superiores no trabalho.

Quase metade das mulheres com idade entre 18 e 34 anos também se sentiria mais à vontade se existisse um emoji para falar sobre o assunto, e por isso a Plan criou uma campanha que escolheu o emoji que poderia representar o ciclo menstrual. Ele deverá ser regularizado até setembro. Saiba mais em www.plan-uk.org/emoji.


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