Não há nada tão bárbaro quanto aceitar essa violência coletivamente

No início da semana uma notícia chocou muita gente: uma menina de 11 anos teria sido estuprada por 14 homens em uma festa. De acordo com a polícia local, o testemunho era falso e o crime não aconteceu (leia aqui). Felizmente, pois só consigo imaginar o horror que teria vivido essa menina. Embora esse caso seja falso, a prática de estupros coletivos no Brasil infelizmente é uma realidade das mais chocantes. E nada atesta tanto o quanto falta para podermos nos considerar civilizados.

Em agosto passado, um levantamento do Ministério da Saúde divulgado pela Folha de São Paulo registrou o alarmante número de 10 estupros coletivos todos os dias no Brasil. Pare para pensar um pouco nesse número: no mínimo 10 seres humanos (em regra, mulheres) são estuprados por mais de uma pessoa todo dia. Isso dá, no mínimo, 20 estupradores vivendo entre os homens normais. Todos os dias.

E sim, vivendo entre os homens normais. Não são loucos, pessoas com deficiência mental ou párias da sociedade. São homens que em uma determinada circunstância agem da maneira mais baixa, cruel e violenta imaginável. Em alguns casos com premeditação, em outros “levados pelo momento”. Em ambos os casos, indesculpável e indefensável.

Pode procurar as notícias: são ex-namorados que planejam um estupro coletivo na ex, são torcedores de futebol que usam da prática para silenciar mulheres da torcida adversária ou mesmo da própria, são homens em uma festa que veem em uma jovem bêbada uma oportunidade.

A frequência com que o estupro coletivo acontece no Brasil escancara como a violência sexual é normalizada por aqui. Mesmo que seja crime hediondo. É tão normalizado que alguns desses estupros são inclusive transmitidos nas redes sociais, uma expressão máxima da sensação de impunidade.

E pior ainda, os estupros coletivos nos escancaram também a socialização absolutamente falha e criminosa que damos aos meninos. Mais uma vez, te convido a pensar no que significam 10 estupros em gangue por dia: significa que um homem viu outro homem (muitas vezes amigo ou parente) estuprar uma mulher e não apenas não criticou ou apontou que o ato era criminoso como decidiu SE JUNTAR A ELE.

O caso de Santos mostrou-se falso, mas foi suficiente para suscitar uma horda masculina (e feminina) justificando o estupro de uma menina de 11 anos porque ela estava em uma festa. Não foram apenas um ou dois comentários insinuando isso, mas sim uma quantidade inaceitável de pessoas dispostas a aceitar e ser conivente com uma violência dilacerante.

No Brasil, temos casos verdadeiros de mulheres estupradas por mais de uma dezena de homens de uma única vez. O que pode haver de tão doente em uma sociedade para que dez homens concordem com uma prática tão brutal? Que nenhum deles sequer esboce uma reação contrária, uma reflexão de “será que está tudo bem fazer isso?”.

Não é o estupro um crime hediondo? O mais cruel? O que nenhum homem em sã consciência iria endossar? Não era um exagero falar em “cultura do estupro”?

 

Nossos números estão aí pra dizer que não. Tristes tempos.

 


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