“Se podem votar, trabalhar, tomar pílulas anticoncepcionais, transar e estudar, o que mais querem as mulheres?” Essa é uma pergunta dolorosamente comum de se ouvir ainda hoje quando reivindicamos direitos iguais. E se em 2016 ainda é assim, dá para imaginar o que passavam as corajosas feministas da década de 60 que lutaram para que tudo isso fosse possível? Aquelas famosas por queimar sutiãs e reivindicar o aborto?

O documentário “She’s beautiful when she’s angry” (“Ela é bonita quando está brava”), recém-chegado à Netflix, discute essa questão. O longa relembra a história dos movimentos de mulheres dos Estados Unidos entre os anos de 1966 e 1971 e como eles impactam a realidade até hoje. É uma narrativa inspiradora sobre o poder das mulheres e sobre a mobilização social, contando como uma situação insustentável vivida por milhões de mulheres virou um movimento poderoso que culminou em mudanças concretas no país e em inspiração para o mundo todo.

As mulheres lutavam pelo reconhecimento de sua causa em uma época de efervescência social e pelo direito de escolha. Para que a maternidade, o casamento e a dedicação ao lar fossem opções. “O pessoal é político”, diziam elas. Também foi nessa fase que surgiram as dissidências tão necessárias do feminismo negro e dos movimentos das mulheres lésbicas, que questionavam a ideia de uma mulher universal e reafirmavam as nossas diferentes experiências.

Poderia ser um documentário sobre o passado dos EUA, mas não quando os direitos das mulheres ainda são questionados e relativizados. Lá, o direito ao aborto está ameaçado. Aqui, o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos deve ser extinto e nenhuma outra Pasta deve ser comandada por uma mulher.

As mulheres dos anos 60 – e também as sufragistas que vieram alguns anos antes – lutavam basicamente pelos nosso direitos, para que pudéssemos ter voz e fazer política. Para que não fôssemos esquecidas. Itens básicos para a plena cidadania de qualquer pessoa, mas que estão mais próximos de se tornarem privilégio.

É um filme (com um nome apropriadíssimo) que chega em um momento crucial para as mulheres, com tentativas de todos os lados para limitar nossos direitos e nossa atuação. Como lembra muito bem uma das mulheres entrevistadas no documentário e que hoje vê as conquistas perdendo espaço em seu país,  “nenhuma vitória é permanente”. Que nunca paremos de lutar.

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Em tempo: acontece até o dia 13 de maio a 4a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, em Brasília. Como o nome indica, os movimentos sociais de mulheres se reúnem para discutir suas pautas e sua agenda para os próximos anos. Não deixa de ser simbólico que o evento tenha começado com um pronunciamento de Dilma Rousseff em um de seus últimos atos públicos e termine com o país com um novo governo excludente para as mulheres. Os movimentos de mulheres se opõem fortemente ao impeachment de Dilma e projetam fortes retrocessos com seu afastamento.

É possível acompanhar a Conferência por aqui. http://www.spm.gov.br/4cnpm/