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A passageira D me procurou essa semana para contar um assédio sofrido com ela após solicitar uma corrida no aplicativo Cabify, que relato abaixo junto à resposta da empresa. Como é típico de casos assim, D está preocupada com sua segurança e frustrada com as respostas dos órgãos competentes em relação ao ocorrido.

O episódio acontece em mais um momento de intensa discussão sobre o assédio sexual no transporte (público e privado). Por isso, é importante entendê-lo não como um caso isolado, mas como parte de uma cenário maior e muito frequente, uma realidade que relutamos em aceitar, mesmo com as crescentes e recorrentes denúncias. Isso não significa, é claro, que o caso não deva ser tratado com profunda seriedade. Afinal, traz implicações à envolvida.

Na noite de domingo, dia 10, D abriu o aplicativo para solicitar uma corrida para o namorado, que estava em sua casa. A corrida foi aceita e em seguida cancelada pois o casal decidiu que ela era desnecessária.

Na segunda-feira, dia 11, o motorista da corrida cancelada abordou D com mensagens de texto, identificando-se como o condutor da viagem inexistente, mostrando o print screen do aplicativo e insistentemente perguntando sobre seu estado civil. Ao ser bloqueado no Whatsapp, continuou a enviar mensagens. 

D não divulgou o caso pois teme por sua segurança, já que o motorista tem o endereço de sua casa (de onde se originou a corrida). Ao relatar o caso para o atendimento da Cabify, a resposta da empresa foi um cupom R$8,00 de desconto em próximas viagens e um pedido de desculpas lamentando o ocorrido. Ao receber a solicitação deste blog para comentar o caso, a Cabify declarou que está tentando contato com a passageira (o que foi confirmado por ela) a fim de tomar “as devidas providências”. A nota completa vai ao fim do post.

Na Delegacia da Mulher a orientação foi de que, por não se tratar de agressão, estupro ou ameaça, o Boletim de Ocorrência não poderia ser feito ali. Na Delegacia comum, ouviu que era apenas uma cantada barata e não um crime e que talvez o delegado (ausente no momento da denúncia) formalizasse um BO não criminal. Até o momento, não tenho notícias se esse BO foi realizado.

 

Na mesma semana, um post viralizou no Facebook com um relato no aplicativo 99. Não exatamente de assédio sexual, embora esta modalidade também esteja presente. Cerca de duas semanas atrás, a escritora Clara Averbuck foi estuprada por seu motorista de Uber, empresa cujo fundador teve que se afastar após denúncias gravíssimas de assédio sexual. Todos os dias, em algum lugar do país, há uma notícia dessa violência em transporte público.

Ou seja: nós mulheres somos assediadas também no transporte. Ao contrário dos homens, que preocupam-se com bens materiais, temos uma preocupação extra: a violação do nosso corpo por parte de motoristas ou demais passageiros. Contamos apenas com a sorte para que esses casos não aconteçam e sejamos conduzidas em segurança para o trabalho, para casa ou qualquer outro destino.

O caso relatado a mim aconteceu via Cabify, mas não é exclusivo dela. O assédio sexual não é um problema limitado a uma empresa de transporte ou ao setor, mas sim um fenômeno de toda a sociedade e que, portanto, será reproduzido. Isso não quer dizer, entretanto, que a companhia (no caso, a Cabify) não tenha responsabilidade no ocorrido e não possa atuar tanto na prevenção quanto na punição e responsabilização de outros casos semelhantes. E dar uma resposta mais efetiva do que um cupom de desconto.

É importantíssimo que as mulheres não tratem essa realidade como normal e que a denunciem sempre que acontecer, mas sem os homens colaborarem ativamente (ao apoiar as vítimas, testemunhar, educar seus pares) essa realidade não vai mudar. Tampouco sem ações consistentes vindas de empresas privadas (prezando mais pela erradicação do problema do que pelos abalos na imagem da corporação) e de  novas políticas que fomentem a igualdade e o respeito à mulher e que previnam e punam a violência. 

Não é a primeira vez que escrevo sobre e infelizmente sinto que não vai ser a última. Mas essa etapa é um caminho imprescindível para combater o assédio sexual e todo tipo de violência contra as mulheres. Temos que falar. São nossos corpos e nossas vidas que estão em jogo. 

 

Nota da Cabify em resposta ao caso de D:

A Cabify acredita que todos têm o direito de ir e vir em um ambiente seguro e repudia qualquer tipo de violência em relação aos passageiros e motoristas parceiros – independente do gênero, raça, credo, sexualidade. 

A Cabify solicita que usuários e motoristas parceiros reportem qualquer situação que considerem atípicas para realizar as ações cabíveis, inclusive a suspensão e bloqueio do usuário ou do motorista parceiro. Além disso, a empresa está à disposição das autoridades locais no sentido de auxiliar em quaisquer investigações. A empresa reconhece a importância das denúncias serem levadas às autoridades competentes e que os temas relacionados à violência, como o assédio, sejam amplamente discutidos, esclarecidos na sociedade e julgados  pelas autoridades competentes.

Em relação ao ocorrido com a passageira que solicitou sigilo, a Cabify lamenta o ocorrido e está tentando contato para orientá-la e tomar as devidas providências. A empresa se solidariza, repudia todo ato de violência e afirma já estar estudando como aprimorar seus processos, melhorar o atendimento de sua equipe e também sua plataforma.

A Cabify reforça que é uma plataforma especializada em mobilidade urbana, que tem como uma de suas principais políticas a garantia da qualidade e segurança do serviço prestado aos usuários. Para assegurar essas premissas, a Cabify realiza um processo rigoroso para o cadastramento de motoristas parceiros, que inclui a verificação de documentos como a certidão de antecedentes criminais atualizada no âmbito estadual e federal, além de realizar conferência presencial de documentos e exame toxicológico. A empresa faz ainda palestras informativas presenciais com dicas de atendimento de qualidade e  de segurança.

Para o suporte aos usuários e motoristas parceiros, a Cabify conta com um serviço de atendimento 24 horas nos 7 dias por semana por meio do app. No caso dos motoristas, é também oferecido uma central telefônica.


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