Todos os valores ensinados pela saga a longo de uma década vêm sendo minados pouco a pouco pela autora

Foto: Reprodução/ site oficial

Eu fui uma daquelas crianças que cresceu com um livro de Harry Potter embaixo do braço. Sou da geração que praticamente se alfabetizou com a série e até hoje procuro refúgio na história do jovem bruxo em momentos de indecisão, medo ou insegurança. Esses livros são, para mim e outros milhões de pessoas, uma importante fonte de empatia e de repassar valores importantes (o valor da amizade, do amor, o poder das escolhas, entre outros).

E não podia ser diferente: os sete livros originais foram escritos por uma mulher recém-divorciada, com filhas para criar e em dificuldade financeira. Há quem diga inclusive que JK Rowling sofreu agressão do primeiro marido. Depois de criar o universo que a tornou mundialmente famosa a autora ainda tomou diversos nãos até conseguir a publicação – não sem antes mudar seu nome artístico para J.K Rowling em uma estratégia para vender mais livros, já que a abreviação poderia sugerir que o autor era um homem.

Rowling criou uma saga referência em empatia e tolerância. E por isso é tão decepcionante que a escritora esteja fazendo cair por terra tudo que construiu em mais de uma década.

 

A franquia de Harry Potter está viva através de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que terá 5 filmes no total. O ator que interpreta o principal personagem é ninguém menos que o sabidamente agressor Johnny Depp. Por conta disso, os fãs da série cobraram muito um posicionamento da autora, pedindo coerência com tudo que “Harry Potter” representa. A criadora do universo mágico ficou em silêncio por um bom tempo, bloqueando no Twitter os fãs que criticavam a escalação de Depp. Quando resolveu se pronunciar, foi para defender a permanência do ator.

A explicação é uma lástima: em nenhum momento Rowling se dá ao trabalho de citar o nome de Amber Heard (ex-mulher agredida pela nova estrela da franquia), mas ela se dá sim ao trabalho de dizer que está satisfeita com a presença de Depp no elenco, mesmo após as análises de seu histórico criminoso. E aí há que se pesar que James Waylett, que interpretava o personagem Crabbe nos filmes originais (que nem falas tinha) foi suspenso do elenco por ter sido apreendido com maconha. Mas o agressor de mulheres continuou.

Como se não bastasse, recentemente  o diretor da nova franquia, David Yates, declarou que o próximo filme não mostrará a homossexualidade de Alvo Dumbledore. É a cereja do bolo da falta de respeito com uma base de fãs que clama por mais representação.

Para os não familiarizados com o universo de Harry Potter, basta saber que Dumbledore é tido como um dos maiores bruxos de todos os tempos e é uma espécie de mentor para Harry Potter. Ainda em 2007 JK Rowling declarou que o personagem era gay, embora isso não fosse mostrado nos livros. Na época, foi um enorme passo à frente, expondo a homossexualidade de um dos personagens mais queridos da franquia.

Pois bem, os novos filmes mostram justamente a juventude de Dumbledore e de sua paixão da época, interpretada por Johnny Depp. Não há oportunidade mais adequada para retratar essa característica do bruxo – que é apenas uma entre tantas outras. E ainda assim sua orientação sexual será ocultada.

Resumindo: não dá pra te defender, JK Rowling. Não dá para colocar a culpa em contrato quando você é a criadora do universo e uma das roteiristas. E também não dá para relevar, como talvez relevássemos caso a história pertencesse a pessoas sem o menor comprometimento com a igualdade, o respeito e a tolerância.

Estes são valores que você se esforçou em defender por sete livros e que tweetou outras milhares de vezes. Por isso, ver uma franquia que mora em nossas histórias e corações tornar-se aliada de homens agressores e constrangida (para dizer o mínimo) de sua representação LGBT é tão dolorido. Sim, nós somos compreensivos – aprendemos com você -, mas exigir nossa aceitação para isso é não compreender o mundo que você mesma deu vida e força.

Os atuais caminhos de Harry Potter desonram uma série fenomenal. Mas pelo menos nos trazem mais uma lição: escrever a respeito é sim importante, mas o que realmente faz a diferença é o que fazemos quando as escolhas difíceis se colocam à nossa frente.  

“São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.” – Alvo Dumbledore em Harry Potter e a Câmara Secreta.


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