Atrizes e ativistas vão de preto ao Globo de Ouro 2018 em protesto ao assédio sexual. (Foto: Reprodução/Instagram Emma Watson)

Não, o Globo de Ouro não pareceu um funeral.

Na premiação da TV e do cinema americanos realizada no último domingo (7), a esmagadora maioria dos convidados vestiu preto como forma de protesto aos abusos sexuais estruturais de Hollywood revelados massivamente em 2017. A ação faz parte de um plano maior: as atrizes, produtoras, roteiristas e diretoras fundaram a organização “Time’s Up” para olhar especificamente para essa questão que, como comprovado em diversas denúncias, tem sérios efeitos nas carreiras das mulheres. Vestir preto no Globo de Ouro representou não o fim, mas o começo de ações contundentes para combater a desigualdade de gênero em uma indústria bilionária. O oposto do que seria um funeral.

No entanto, há sempre os que acham que combater o assédio é promover o fim do romance, do flerte e das relações entre os sexos. No Brasil e na França já circulam manifestações públicas nesse sentido, que desqualificam um movimento articulado e extremamente necessário em todos os setores e classes sociais.

Não é de agora. Sempre que há um movimento coletivo em prol de direitos das mulheres somos acusadas de querer acabar com alicerces da sociedade. Uma acusação que na verdade procede, pois se o modelo é nocivo, não há o menor interesse em seguir com ele. Falar que queremos acabar com o flerte e o romance é só uma das maneiras desonestas de ataque a quem, contra tudo e todos, afirma que merece ser tratada em pé de igualdade. É uma maneira maquiada de reforçar aquela velha imagem da feminista mal-amada que quer acabar com a graça do mundo.

Certa vez, em um programa de TV que me convidou para falar sobre o combate ao assédio sexual, um famoso escritor que também participava da conversa soltou o argumento de que era óbvio que a violência tinha que acabar, mas nós (mulheres, feministas) devíamos ser cautelosas para não acabar matando o romance junto.

Ora, de que romance estamos falando?

O romance e o amor não estão de maneira nenhuma ameaçados com o feminismo. O que corre perigo sim é a falta de consentimento, as abordagens agressivas e invasivas mascaradas de amor, o ideal de que vale tudo e que entre dois pares ninguém mete a colher. Se alguém acha que isso é romance ou faz parte dele eu sinto informar, mas o problema não está com as feministas. Está com seu ideal de amor, de homem e de mulher e de como eles devem se relacionar.

Quem acha que o feminismo vem para acabar com o flerte não é um romântico. É, na verdade, a pessoa que menos acredita no amor e que o menospreza, pois crê que ele só acontece quando uma das partes é subjugada, em maior ou menor medida, pela outra. Que só há conexão quando há desigualdade e hierarquia.

Se for assim, tô fora. Se por “romance” estivermos falando sempre de uma relação desigual e por “flerte” de um movimento em que só uma das partes consente, eu quero é distância mesmo. Ou melhor, quero é destruir para construir uma coisa melhor.

E não tem nada de mal-amada nisso. De onde estou, não vejo nada mais distante do amor do que violentar outra pessoa.


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