Donald Trump, candidato republicano à presidência dos EUA, está passando por uma crise em sua campanha. Tudo porque conversas antigas foram tornadas públicas e, nelas, Trump faz comentários para lá de sexistas. Diz que não espera as mulheres consentirem para beijá-las e que ‘quando você é famoso, elas deixam’. Justificou-se dizendo que era apenas conversa de vestiário e que ninguém respeita mais as mulheres do que ele.
O evento está muito longe de ter sido o primeiro deslize sexista de Trump, que ao longo de toda sua campanha não economizou em besteiras preconceituosas, estereotipadas e discriminatórias, em declarações coerentes com outras que o milionário já havia dado em outras épocas de sua vida. Trump já disse que espera chegar em casa e ter o jantar pronto (preparado por sua mulher), já objetificou a própria filha e outras meninas, ofendeu as mulheres chamando-as de feias, já disse que o comportamento de uma repórter era influenciado pela menstruação dela. Interrompe Hillary Clinton o tempo todo, diz que a aparência das mulheres importa e que não gastaria tempo criando filhos porque é função de sua mulher.
Nunca faltaram registros da interminável lista de machismos de Trump, mas só agora o candidato foi afetado. Só agora as pessoas se indignaram e consideraram a gota d’água. Não sou capaz de entender o porquê, mas não paro de pensar em como nós – tanto nos EUA como no Brasil – somos tolerantes com o preconceito e com o machismo.
Não só sempre se passou pano nas declarações de Trump como ele ganhou votos por causa delas. Todos seus comentários anteriores passaram incólumes pelos americanos, embora nada tivessem de inofensivos. E é aí que mora o problema: no Brasil ou nos EUA, temos uma dificuldade tremenda de entender que são os comentários dos bastidores, os que parecem inocentes, que sustentam o assédio, abuso, violência sexual e crimes de ódio – seja às mulheres, negros, LGBT.
Trump não teve sua imagem arranhada quando sexualizou a filha ou quando disse que sua mulher quem criaria os filhos do casal. Soou normal. Só que o pensamento que origina esse comentário é o mesmo que fez Trump dizer que “se você é famoso, elas deixam”. Não há diferença. E quando reclamamos e apontamos exatamente a raiz em comum entre comentários “inofensivos” e criminosos, somos as feminazis fazendo mimimi. Mas depois que a bolha estoura ninguém economiza ao apontar todos os indícios – no caso de Trump, os comentários deploráveis que ele já fez ao longo do tempo.
Essa artimanha do machismo não nos deixa esquecer o tamanho do adversário contra o qual lutamos. Todo mundo é contra o estupro, mas poucos se lembram que ele não nasce do dia para a noite ou de uma patologia individual. Comunicar que a violência contra a mulher é um fenômeno estrutural e nada pontual é um dos maiores desafios que enfrentamos.
Entendo que é difícil ou no mínimo desconfortável perceber que o comentário machista feito pelo amigo na mesa de bar legitima um estupro, mas não há a menor possibilidade de colocarmos fim à violência contra a mulher enquanto não entendermos que são os comentários de bares e vestiário que sustentam Trumps e Bolsonaros. É preciso lutar contra isso. Vai ter textão e problematização sim, até ninguém mais se atrever a falar algo do tipo.