Foto: Pixabay

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Com o aumento do debate sobre o assédio sexual nos espaços públicos, muitas iniciativas surgiram no Brasil visando combater o problema, entre campanhas de conscientização em metrô e ônibus, distribuição de apitos para que as mulheres possam sinalizar o abuso, entre outros. Agora, crescem as ações combatendo o problema nos táxis e aplicativos similares.

O assédio sexual no transporte particular parte, em geral, do motorista para a passageira – indo desde assédios verbais a até estupro -, embora também existam casos em que o passageiro assedia a motorista ou mesmo a violência entre os passageiros (como na modalidade UberPool, de compartilhamento de corridas). Pensando nisso, vários aplicativos entraram em operação no Brasil e no exterior para resolver o problema. O principal diferencial? A motorista é mulher – e a passageira também. Entre eles estão o Táxi Rosa, Femitáxi e LadyDriver.

“Em 2015 recebi relatos de amigas sobre o comportamento inadequado de alguns motoristas e sugeri a criação de um app de táxi exclusivo para mulheres”, diz Charles-Henry Calfat, CEO do Femitáxi, aplicativo em operação desde 2016. O app é exclusivo para mulheres e crianças desacompanhadas (meninos e meninas a partir de 7 anos) e está disponível em São Paulo e Belo Horizonte, com mais de 250 taxistas cadastradas. Até agora, já foram mais de 10 mil downloads do aplicativo e uma boa resposta do público.

“Praticamente todas as usuárias nos elogiam pela iniciativa de trazer a opção de se deslocar com taxistas mulheres pela cidade. Temos casos de mulheres que só decidiram ir a uma festa durante a madrugada após acertar o agendamento de corrida com nossa motorista”, diz o CEO.

A 99 também enxergou a tendência e desde outubro conta com o opcional “99 Motorista Mulher” em São Paulo e no Rio de Janeiro. O serviço é exclusivo para mulheres e crianças (desde que pedido pelo responsável) e conta com mais de 1600 motoristas cadastradas.  A motivação foi uma pesquisa realizada com as usuárias que mostrou que 60% delas gostariam desse serviço específico. “É uma forma de oferecer mais conforto, tranquilidade e mais segurança para as passageiras”, diz Analu Andrigueti, gerente de comunicação da empresa.

Foi uma resposta rápida da empresa, que somente nos meses de julho e agosto de 2016 recebeu 195 comentários de usuárias contendo palavras como “abusada”, “ameaçou”, “molestou” e “estuprou”. A empresa também realizou, neste mês de março, workshops de sensibilização para o assédio sexual com cerca de 200 motoristas, em maioria homens.  

O mais recente aplicativo é o Lady Driver, disponibilizado para Android hoje. Após a CEO Gabi Correa sofrer um assédio de um motorista de táxi, ela passou a andar só com motoristas mulheres, o que rendeu a ideia do aplicativo. Já com 2000 motoristas cadastradas, a versão para iOS deve ser lançada em 15 dias e por enquanto o app só vale para São Paulo.

No Rio de Janeiro, as usuárias também têm a opção do Táxi Rosa. Ainda sem previsão de chegar ao Brasil, o SafeHer e o Chariot for Women realizam o mesmo trabalho no exterior.  

Sem especificação

Já a Uber não possui especificidades para mulheres, mas declara que “acredita na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra mulher” e que “atitudes como essa não condizem com o que esperamos de nossos parceiros e violam os termos de uso da plataforma. Nós queremos que nossos usuários sintam-se seguros e não toleramos qualquer tipo de assédio ou violência. Os parceiros que cometem qualquer tipo de violência são automaticamente desconectados da plataforma”.

Em 2016, também quando aumentaram as denúncias e reclamações no serviço, a Uber aderiu às campanhas do Disque 180 e do #33diassemmachismo. Neste ano, fechou uma parceria com a revista CLAUDIA e a ONU mulheres em uma campanha de prevenção de assédio com os motoristas parceiros.

A Cabify, uma das principais concorrentes, também não tem ações específicas. A empresa declarou em nota que a plataforma utiliza um rígido processo de seleção de motoristas, solicitando exames médicos, psicotécnicos e toxicológicos e que realiza palestras informativas sobre boas práticas de atendimento.

A Cabify é uma plataforma inclusiva e igualitária, recebendo sem discriminação todos que atendam às nossas exigências de qualidade e segurança. Hoje temos centenas de motoristas parceiras, incluindo transsexuais, em nossa base. Acreditamos que é essencial proteger, respeitar e assegurar igualdade para todos os nossos parceiros e é isso que realizamos diariamente. Temos tolerância zero para qualquer motorista parceiro ou passageiro que não respeite essa visão e que cerceie de qualquer forma os direitos de outro ser humano. Acreditamos e praticamos a igualdade de gênero dentro e fora da empresa”, diz a nota.

Bom começo

Todas estas iniciativas perceberam a mesma coisa: as mulheres estão vulneráveis a ao assédio sexual em todos os ambientes. No caso do transporte particular, há alguns agravantes: o comando está, literalmente, na mão de outra pessoa. E, ao contrário do transporte público, a relação aqui é muito mais pessoal – e por isso os crimes cometidos nesse contexto podem ser muito mais efetivos. Não há ninguém além de passageira e motorista. Nesse contexto, e considerando que os táxis são tradicionalmente uma profissão muito masculina, a opção de motorista mulher é revolucionária.

Diferente de iniciativas como o vagão rosa – uma política pública de segregação entre os gêneros e de confinamento das mulheres – penso que os aplicativos para mulheres são benéficos, ainda que sejam paliativos. Não quero viver numa sociedade em que eles sejam necessários, mas enquanto o são é bom conhecer as opções.

Para saber mais sobre a relação das mulheres com transporte particular, confira a excelente matéria da Gênero e Número, uma iniciativa que usa o jornalismo de dados em pautas com viés de gênero.


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