O mundo concorda com uma coisa: 2016 foi um ano no mínimo estranho. No Brasil, os ânimos se acirraram, nossas opiniões ficaram mega polarizadas e as reviravoltas na política foram incontáveis. Nos EUA, a corrida eleitoral também causou uma polarização perigosa. Foi um ano de muitos conflitos, tensões e tragédias humanitárias, um período daqueles que nos convida a perder a esperança no futuro.

O coro quase uníssono de “Acaba, 2016!” vem com a esperança de que as tragédias parem por aqui e não cheguem perto do ano que se aproxima. Por mais entusiasta que eu seja com os novos ciclos, infelizmente tenho um péssimo palpite: 2017 tem tudo para ser pior. Especialmente se você é pobre, mulher, negr@, LGBT ou membro de qualquer minoria social.

Este ano termina e nós permanecemos matando gays, lésbicas, travestis, transexuais, negros, pobres… Infelizmente nada disso é novidade. Mas tivemos retrocessos importantes e deixamos livre o caminho das forças reacionárias dispostas a acabar com o pouco que conquistamos. Logo no primeiro dia de 2017 sentiremos o impacto: mudam as prefeituras e Câmaras Municipais de todo o Brasil, tornando-se (ainda mais) brancas, conservadoras e masculinas, pouco ou nada preocupadas com igualdade social e com o avanço das pautas de mulheres e outras minorias.

Não creio que nos próximos quatro anos nós mulheres seremos representadas pelas Instituições. Creio que vamos precisar lutar mais do que nunca para não perder o básico, que foi conseguido tão arduamente e a custa de muita briga. Embarcaremos numa viagem turbulenta e com o destino ainda incerto.

Internacionalmente, também não temos boas notícias. Para as mulheres e minorias, acho que o governo de Trump – já desastroso antes mesmo de começar – e de Putin são as maiores ameaças, mas estão longe de ser as únicas. Basta lembrar das trágicas notícias cotidianas sobre o tratamento que o Estado Islâmico reserva às mulheres. É preciso repetir: a luta para nós é questão de necessidade e vai ser para não perder o que já temos. Avançaremos se for possível.

Falo isso para minar as esperanças de um 2017 positivo antes mesmo dele começar? Não, pelo contrário: para combater um inimigo precisamos saber exatamente qual o seu tamanho e poder. Seus pontos fortes e suas fraquezas. E só vamos conseguir fazer frente às políticas discriminatórias levando isso em consideração. Precisamos deixar de nos iludir e entender que estamos em um cenário desfavorável.

A boa notícia é a de sempre: nós temos um motivo pelo qual lutar, sentimos as mudanças no nosso dia-a-dia e, de quebra, conhecemos as melhores pessoas no caminho. E é uma jornada com muito menos ódio e mais gentileza.

 

O alerta está dado, o desafio está posto. O ano que chega vai ser necessariamente de luta – o que torna nossas conquistas ainda mais saborosas. Pode chegar, 2017!