Photo: Ron Sachs/Getty Image

Photo: Ron Sachs/Getty Images

Tenho alguma convicção de que o feminismo tem avançado, crescido e conquistado cada vez mais pessoas no mundo. Nós, mulheres, formamos um movimento visível e respeitado. Também tenho convicção de que isso provoca reações furiosas e faz com que o Poder contra-ataque de maneira desproporcional numa tentativa desesperada de se manter e frear uma mudança inevitável. Acredito nisso, mas ando me deparando com tantos retrocessos que coloco minhas convicções à prova com cada vez mais frequência.

Talvez seja “apenas” uma fase em que o Poder contra-ataca, talvez seja minha pouca idade presenciando pela primeira vez um movimento que é cíclico, mas é difícil saber o que fazer e para onde direcionar minha luta quando meu país e o mundo avançam sistematicamente medidas que provam que minha vida, meu bem-estar e minha cidadania valem menos.

No Brasil, tomamos um baque com a ascensão de Temer. Um governo feito de homens e para homens, com a rápida extinção das políticas para mulheres. Desde lá, descobrimos que no fundo do poço tem alçapão e vamos amargando um retrocesso atrás do outro. Depois, veio a eleição de Trump. Um homem que, com menos de um mês no cargo mais poderoso do mundo, já acumula medidas excludentes, racistas, sexistas. E o que é pior: ignora ativamente os protestos e demandas da população. “Tive a impressão que acabamos de ter uma eleição. Por que essas pessoas não votaram?”, disse ele em resposta ao Women’s March, maior protesto da história dos EUA, realizado um dia após sua posse e capitaneado pelas demandas das mulheres.

Trump também já aderiu a chamada Global Gag Rule, uma política instalada no governo conservador de Ronald Reagan e que proíbe que organizações que recebem dinheiro do governo norte-americano facilitem o acesso ao aborto legal ou que dêem informações sobre ele, mesmo que o façam com sua própria verba. Agora, Trump endureceu ainda mais a medida: serviços que apenas mencionem o acesso ao aborto ou que se mostrem favoráveis a ele já estão desqualificados e não poderão nem receber a verba. Embora não tenha sido uma surpresa, foi um soco no estômago das mulheres. É uma medida totalmente anti-autonomia, captada muito bem numa foto: sete homens decidindo sobre sistemas reprodutores femininos. Entre eles, um presidente assumidamente assediador (basta lembrar dos áudios vazados durante a campanha presidencial) e um vice-presidente considerado o maior homofóbico do mundo e que já apoiou leis duríssimas anti-aborto (com medidas que incluíam enterro do feto) quando era governador do estado de Indiana.

Para não dizer que ele não tem amigos, Trump desenha uma boa relação com Vladimir Putin, presidente da Rússia. Um governante ultra-conservador e que tem feito o maior país do mundo ser também um dos piores para ser mulher e/ou LGBT. A última por lá é de uma gravidade sem igual: o Parlamento russo aprovou o afrouxamento da legislação de violência doméstica, e espera-se que Putin siga em frente com a medida. Na prática, deixa de ser crime um familiar agredir uma mulher uma vez por ano, especialmente se não bate o suficiente para hospitalizá-la.

Seria um absurdo em qualquer nação, mas é uma calamidade quando se fala de um país com a quarta maior taxa de assassinato de mulheres do mundo, ganhando até mesmo do Brasil. São cerca de 600 mulheres perdendo suas vidas para a violência doméstica todos os meses, numa taxa de 5.3 homicídios a cada 100 mil habitantes. Um verdadeiro escândalo. A proposta, infelizmente, partiu da iniciativa de legisladoras mulheres. Deve ser aprovada por Putin com a justificativa de que o Estado não deve interferir em assuntos de família, o que vai se traduzir em falta de apoio a projetos e ONGs que dão suporte às vítimas de violência e em uma certa licença social para agredir as mulheres.

Isso apenas no primeiro mês do ano e em duas das nações mais estratégicas do mundo. Está longe, muito longe de representar tudo que está acontecendo. Por isso é difícil manter aquelas minhas convicções. Será que estamos avançando mesmo? Não podemos ser paradas? Porque eles tentam com todas as forças…

Nesses momentos tento me apegar a algo que já escrevi algumas vezes por aqui: a liberdade e as vidas que estão em jogo são as nossas. Nós é quem temos motivos para lutar. E não podemos perder isso de vista. Agora e sempre é hora de invocar Maya Angelou:

Você pode me inscrever na história

Com as mentiras amargas que contar

Você pode me arrastar no pó

E, assim como o pó, vou me levantar.

 

E como vamos.


Leia mais sobre a mudança na lei russa aqui, aqui e aqui. Assine um abaixo-assinado contra sua aprovação aqui.

 

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