Foto: Leo Pinheiro/Fotos Públicas

Há períodos em que o mundo permite que avancemos nas discussões por direitos, mas há épocas tenebrosas em que temos que lutar para não perder conquistas muito básicas, o que infelizmente vem sendo muito mais recorrente no Brasil. A última é a “reorientação da sexualidade”, que voltou a ser tema de discussão em pleno 2017 após uma liminar se mostrar favorável à medida. Dói ter que escrever sobre isso, mas lá vamos nós discutir o que torna essa medida inaceitável.  

 

Não, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho não liberou a “cura” ou sequer disse que a homossexualidade precisa ser curada em sua polêmica liminar.

Não, quem está se revoltando com a decisão do juiz não está distorcendo as palavras dele ou sendo “desonesto intelectualmente”. Menos ainda desrespeitando as liberdades individuais.  Quem está revoltado/a é porque entende o perigoso precedente que essa liminar contraditória abre: tornar a reorientação da sexualidade de alguma maneira aceitável. Ainda que seja só em uma liminar, tímida, quase despercebida.

De tímida, na verdade, ela não tem nada. Ela é escandalosa e nos ensurdece ao gritar que é possível mudar o que somos caso a nossa identidade seja o motivo do sofrimento. Ou seja, a “reorientação sexual” reconhece que a identidade LGBT pode ser motivo de sofrimento para um indivíduo, mas entende que a pessoa é a culpada por ser lésbica, gay, bissexual ou trans, e não o sistema que repetidamente comunica que ser LGBT é errado. E, portanto, é a pessoa que tem que mudar. Ela que se adeque, porque nós é que não vamos pensar em tratá-la como gente.

Está sofrendo? Que pena, vire hétero.

Não, neste caso não se trata de uma decisão pessoal e individual, porque consentir que um psicólogo/terapeuta aceite um LGBT para tratamento significa autorizar que esse profissional aja em desacordo com a ciência*. Mesmo que alguém queira ser “curado”, qualquer profissional ao redor tem de tomar uma decisão baseada nos fatos e não em crenças pessoais. E digo mais: querer ser reorientado não significa que isso é possível (spoiler: não é).

Em outras palavras: “reorientar” a sexualidade de alguém não é resolver o problema. Pelo contrário: é se eximir de qualquer responsabilidade no sofrimento alheio. É ser canalha, por reforçar que a causa do sofrimento está dentro da pessoa e não em como ela é tratada pelos outros. E mais canalha ainda porque o discurso fica maquiado sob o manto do profissional disposto a ajudar.

Se em uma sociedade há tantos gays/lésbicas/bissexuais querendo ser héteros é por conta de como são tratados. Basta ver que não há heterossexual querendo ser gay para então poder doar sangue, não ser expulso de casa, andar de mãos dadas nas ruas, ser aceito pela família, entendido como o normal e não como “o outro”, ameaçador e contagioso.

Sim, há um mal terrível na nossa sociedade, mas ele não é a homo/bi/transexualidade, e sim o preconceito, a falta de empatia e de responsabilidade com os outros. E o mais triste é que esse não é um mal de nascença, mas uma doença adquirida. E muito bem adquirida, visto toda a resistência para sermos curados dela.

Os LGBTs que entendem que não há nada de errado com eles não são os doentes, mas sim as pessoas mais saudáveis de uma sociedade onde o bom senso e a dignidade respiram com ajuda de aparelhos.

 

*Uma observação que se faz importante aqui: é fundamental lembrar que desde 1990 a homossexualidade não consta mais no rol de doenças, mas esse argumento também tem que ser visto sob um olhar crítico. A transexualidade consta na lista até hoje (como ‘disforia de gênero’) e nem por isso é menos legítima. O movimento de homens e mulheres transexuais já há algum tempo luta com garra para que suas identidades deixem de ser patologizadas. Não é constar ou não em uma lista médica que transforma as identidades em anormais e passíveis de tratamento. Ou pelo menos não deveria ser.


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Confira

Documento

a liminar do juiz Waldemar Claudio de Carvalho.