Demorei a perceber que o estupro era um crime relativizado e aceito em nossa sociedade. Ainda adolescente, já entendia sua gravidade e pensava que a sociedade o considerava um dos piores atos existentes, digno de punição muito severa. Nos filmes, era um fato que causava sofrimento para as vítimas. Fora isso, há o boato de que os estupradores são segregados e maltratados na prisão. Tudo isso me levava a crer que a violência sexual nunca poderia ser posta em dúvida ou ignorada socialmente.

Pois bem, eu estava enganada.

Estranhei, então, quando ouvi a expressão “cultura do estupro” pela primeira vez, um conceito que acusa nossa cultura de legitimar esse tipo de violência. Mas quando me explicaram, usando o exemplo do estupro na cadeia, eu entendi. Seja verdade ou não, a ideia muito difundida de que os estupradores são ‘feitos de mulher’ na prisão só confirma como a cultura do estupro existe. E como ela é um problema de gênero.

Explico melhor: violentar sexualmente aqueles que cometeram esse crime nada mais é do que dizer que o estupro é aceito na sociedade. Que é uma forma legítima de punição e uma demonstração de poder. E vai além: ao registrarmos, em nosso imaginário, que aqueles que passam por isso estão ‘virando mulherzinha’, escancaramos involuntariamente como esse problema tem gênero. Dizemos com todas as letras o que é ser mulher no mundo*.

Já entrevistei várias mulheres vítimas de estupro e poucas experiências exigiram tanto de mim. Para todas elas, foi um episódio traumático, talvez o mais traumático de suas histórias. Nenhuma denunciou à polícia, com medo do julgamento que iriam receber de todos a seu redor e da culpabilização pelo ocorrido. Elas também não nutriam esperança de que seus agressores fossem encontrados e/ou punidos. E tinham muito medo do que viria a seguir, porque o estupro não acaba quando o agressor vai embora. O estupro permanece.

Permanece através do rótulo de mulher estuprada, das perguntas que vêm a seguir, da sua palavra colocada em dúvida, de uma gravidez, de um medo que perdura por toda a vida. O estupro acaba, mas a violência continua quando nos perguntamos o que a vítima deve ter feito, ainda que indiretamente, para causar a violência: “Por que você bebeu? Que roupa estava usando? Você tem certeza que foi isso mesmo que aconteceu?”

Cresci, como a maioria das meninas, aprendendo a ter medo de andar sozinha na rua, principalmente à noite – e aqui pontuo que os homens nunca saberão que medo é esse, tão instrínseco para nós e tão impensável para eles. Esse tipo de estupro, cometido por um homem estranho e sem rosto, é talvez o menos tolerado pela sociedade, e mesmo assim as vítimas silenciam. Imaginem então a violência sexual que acontece dentro de casa, por um membro da família ou pelo parceiro. Ou aquela cometida por “amigos” e outros conhecidos, ou ainda a violência que ocorre com a vítima desacordada por causa do álcool.

Esses casos acontecem, queira você acreditar ou não. E com uma frequência aterrorizante. Os dados de violência sexual no país relatam uma realidade vergonhosa: quase 48 mil casos de estupro registrados em 2014, uma média de um a cada 11 minutos. O pior é a estimativa de que esses dados representem apenas 35% do total, segundo o

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de 2014 identificou que 88,5% das vítimas eram do sexo feminino e mais da metade menor de 13 anos de idade (qualquer semelhança com o  #meuprimeiroassedio não é mera coincidência). E os agressores? Em sua maioria, pessoas conhecidas. O estuprador, no Brasil, não é um louco isolado da sociedade. Ele é a sociedade.

A violência sexual por aqui é tão aceita e normalizada que chegamos a um ponto inacreditável de, em pleno Congresso Nacional no ano de 2014, um parlamentar dizer que só não estupraria uma colega de Casa porque ela era muito feia. E continuar legislando.

Parafraseando uma fala largamente usada em protestos mundo afora: é 2015 e eu ainda tenho que protestar por essa merda.

*Registro aqui que estupros também acontecem com homens, embora em proporção muito menor. Nesse caso,  se concentram em garotos muito novos e que têm minha solidariedade.