Uma cena comum na vida de nós, mulheres, é apressar o passo ao voltar para casa a noite. Olhar para os lados e, só por precaução, deixar alguma coisa na mão que possa ser usada como arma. Ou ainda deixar os bens materiais “no jeito” para, em caso de assalto, a ação ser rápida e acabar ali. Talvez para os homens não fique claro o porquê disso, mas nós sabemos bem: vivemos constantemente com medo de violência sexual e tentamos prevení-la com o que está a nosso alcance.

Não é exatamente uma prevenção, já que nenhuma violência sexual acontece por conta de comportamento da vítima. Não depende de nós que um abuso aconteça ou não, e sim de quem decide abusar.

No entanto, há pequenas atitudes fáceis de adotar e que podem nos proteger. Uma delas é andar em grupo, fazer companhia a outras mulheres. Uma ideia simples e eficaz, que ganhou visibilidade depois da criação da campanha “Vamos juntas?”, da jornalista Babi Souza. O movimento propõe exatamente isso: que nós mulheres nos ajudemos. Babi lançou o livro sobre o movimento nesta semana em São Paulo, em que dá diversos exemplos de como essa pequena mudança já salvou mulheres de situações de abusos e violência. E, acima de tudo, como a ideia de uma mulher dar suporte à outra é revolucionária e empoderadora. E ela tem razão. Nós devemos fazer mais isso umas pelas outras. O medo que nos acomete não é individual, é coletivo. Por que então tentamos nos proteger sozinhas?

Caminhar junto a outra mulher que faz o mesmo destino que você, dar carona numa situação de perigo, tirar de uma situação de assédio ou intimidamento são atitudes que todas podemos tomar. É bem verdade que homens que identificam essas situações também podem ajudar, mas não é a mesma coisa. Como explica uma das frases do movimento Vamos Juntas?, “só as mulheres entendem o alívio de olhar para trás na rua e ver que quem está caminhando atrás de você é uma mulher”. É o melhor jeito de nos sentirmos seguras em um mundo tão violento conosco.

É absolutamente inegável a importância de aderirmos à essa ideia, especialmente porque o apoio entre mulheres geralmente não nos é ensinado. Mas não podemos esquecer que essa é uma medida paliativa. Poderosíssima, sim, mas paliativa. Ela só se faz necessária porque a violência sexual é totalmente naturalizada e disseminada em nossa sociedade, culminando em números astronômicos de casos de abuso e estupro.  

A verdadeira mudança se dará quando os meninos forem educados a respeitar as meninas e mulheres. Aí nem precisaremos mais andar juntas a fim de evitar um episódio de violência. Não há meio de mudar uma cultura violenta se metade da população sequer entende que certos comportamentos são violência.

É claro que, até lá, todas as medidas de conscientização são bem-vindas, até porque de maneira nenhuma a sororidade entre mulheres e a educação feminista dos meninos são ações excludentes. Quanto mais mobilizamos hoje, mais contribuímos para que as atitudes no futuro sejam diferentes. Só não podemos perder de vista que, por mais revolucionário que seja o apoio entre mulheres, são os homens que já passaram da hora de entender que não devem assediar, agredir, abusar ou violentar.

Até lá, vamos juntas?