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As roupas criadas pela Flavia Aranha são encantadoras – e não só pelo design. As peças são lindas, mas têm uma aura diferente, que vai além do que se vê. Acho que é porque elas têm história. Aliás, muitas histórias por trás de cada fio. A seda dos tricôs dessa coleção, por exemplo, vêm de um produtor que usa casulos descartados pelos produtores tradicionais e cria, com isso, um fio rústico, com toque diferente. Parte do algodão vem de uma comunidade de tecelãos de Pirenópolis, Goiás, onde as famílias plantam nos fundos de casa e as mulheres se reúnem, cantando, para tecer. Os vestidos são estampados com pétalas de rosa e pedaços de tronco de peroba, em uma técnica manual que Flavia está desenvolvendo e ensinando a estudantes de moda. “Eles querem saber como eu juntei todo esse conhecimento, chegam aqui curiosos, muito interessados nessa coisa de slow fashion”, conta. Falando de slow fashion (leia mais aqui), aliás, não conheço outro estilista que aplique de um jeito tão variado os conceitos dessa moda sem pressa em suas criações. Para trabalhar hoje com a colaboração das famílias de Pirenópolis, por exemplo, foram sete anos de visitas, encontros, conversas. “Nesses lugares, não funciona você chegar e pedir o que quer, dar prazo etc. É outro tempo, outra maneira de trabalhar. Mas hoje já temos um relacionamento mais sólido e consigo ter uma produção mais consistente”, diz. Um dos frutos dessa relação foi a valorização do trabalho dessa comunidade que envolve agricultores, fiandeiras e tecelãs. No Vale do Urucuia, Minas, outro campo em que Flavia começa agora a participar da formação de uma cadeia produtiva, as fiandeiras já conseguiram, de cara, dobrar o valor dos ganhos.

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Essa semana estive conversando com a estilista pra inaugurar uma seção de perfis de criadores que tenham essa preocupação com o consumo consciente em seu jeito de criar, produzir e vender roupa. Nesse quesito, não conheço ninguém que faça um trabalho com tanta maestria. E que tenha o resultado delicado, atemporal e lindo que a Flavia apresenta. Gostei tanto do papo que resolvi colocar uma pequena entrevista pra vocês aproveitarem a conversa também.

Como está essa história de slow fashion no Brasil?

Começando a ganhar força, mas vejo que tem muita coisa faltando. Hoje se fala no tempo do estilista, que não consegue produzir quatro coleções por ano, mas o próximo passo é discutir não é só o tempo do estilista. É o da costureira, da modelista. Isso tem que ver até com a produção da fibra. Quem é que faz? E como? Não cuidamos da cadeia inteira pois esse é um trabalho longo, que exige. Muitos estudantes querem todas as dicas sobre como fazer essa moda slow, como pesquisar, encontrar os artesãos. Mas a questão é que faz sete anos que estou desenvolvendo relações para articular essa cadeia produtiva. Leva tempo e paciência, mas eu adoro essa pesquisa.

Envolver essas comunidades em seu trabalho mudou a vida das pessoas que fazem parte dela?

Olha, quando as filhas da dona Ana, uma das pessoas que tece o algodão que uso, lá em Pirenópolis, começaram a perceber que poderia haver demanda pelo trabalho da família, passaram a administrar o negócio da família. Elas viam as peças prontas, viam que saía na revista…E agora elas estão com sua própria linha de produtos. Não dependem mais de alguém de fora para vender o que fazem.

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Como é que você escolhe essas comunidades?

Eu pesquiso, pergunto, as pessoas me contam. Agora estamos começando no Vale do Urucuia, em Minas, um projeto grande de produção de algodão artesanal, de resgate das técnicas tingimento natural. Fiz uma expedição de 10 dias por lá e vi que muitos grupos de artesãos estavam minguando. Agora temos um projeto que vai ficar maduro daqui cinco anos. Queremos plantar nossos pigmentos tintórios, inclusive pra fornecer para outros artesãos.

Você curte muito o processo de fiar, tecer, tingir. Você gosta mais disso do que fazer roupa?

Gosto dos dois. Tudo me interessa. Desde a pesquisa até por a roupa na loja. Eu não conseguiria fazer só o tecido, mas também não me completa pegar um pedaço de pano pronto, qualquer, sem saber nada, e criar a partir dele. Claro que faço isso com algumas peças, mas os desafios de transformar a matéria-prima desde o início me atrai.

Apesar do processo artesanal, as roupas que você faz não têm nada de hippie, são muito contemporâneas. Qual é o conceito que vem com elas?

Nosso design é muito simples. A gente passa uma mensagem de que o que está atrás desse design é muito importante. Acho que o cara que plantou o algodão é tão importante quanto o meu desenho. Não me vejo separada dessa cadeia de produção. E, para que eu escolha um artesão, bordadeira, tecelã para criar comigo, primeiro tenho que me envolver com eles, conhecer, entender. Para mim, todos nós temos parte nessa criação que está na vitrine.

Flavia Aranha_perfil_crédito Daniel Malva 1

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Até!