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Faz pouco a C&A lançou uma campanha onde, discretamente, sugere uma moda sem gênero. Antes, a Zara já tinha feito algo no estilo, com roupas ungendered. No caso da C&A, a ideia aparece de leve, com um dos modelos do anúncio provando um vestido (o que na minha opinião não é exatamente uma moda sem gênero, mas um homem provando um vestido. Ponto). A campanha chama Tudo Lindo e Misturado, mas quando você vai comprar as peças vê que são belas roupas, masculinas e femininas. Só. O próprio anúncio sugere essa troca mais como uma diversão. E tem a Louis Vuitton, que botou um modelo em sua campanha de roupas para mulheres. Sem contar as passarelas do ano passado, com Gucci mostrando roupas que podem ser usados por qualquer um, não importa o sexo, e JW Anderson combinando calças de alfaiataria nos homens com tops com laços e ombros de fora.

Esse movimento alguns já fizeram antes, para chocar ou por gosto, como o pessoal do crossdressing. Caetano já usou saias. Até Bruno Gagliasso, que não é nenhum exemplo de vanguarda, botou seu vestidinho dia desses e não ficou ruim, não (ainda que eu prefira um homem de terno bem cortado).

Esse é um jeito das grandes empresas mostrarem que estão “por dentro”? Tipo nossos avós falando gíria quando a gente era adolescente só para mostrar que sabiam o que se passava na nossa cabecinha? Acho que sim. Mas, claro, o fato de que o mercado esteja começando a abraçar essa ideia dá uma dica de que ela esteja saindo dos guetos e ensaiando se popularizar. Roupa é um elemento muito importante da cultura e do comportamento. Quando as mulheres tiveram que trabalhar, após a Segunda Guerra, elas encurtaram as saias e começaram a usar casacos, tipo terninhos. Quando elas entraram mesmo pro mercado de trabalho, começamos a ver ombreiras enormes nas passarelas, meio que imitando os ombros e ternos masculinos, nos anos 80. Aliás, está aí uma diferença. No passado, eram as mulheres se vestindo de homens, vamos dizer assim. Agora, a moda genderless tem um pouco mais de homens se vestindo de mulheres…nas campanhas. Porque, na prática, as mulheres já usam blazers e calças boyfriend, coturnos e por aí vai. É normal que a gente entre no armário do namorado e pegue a camisa dele, mas eles nunca entraram no nosso armário. Até agora… Não vi, até hoje, uma roupa de fato sem gênero que não seja a moda masculina adaptada pro corpo feminino. Cadê as roupas femininas para os homens femininos, como o Pepeu Gomes dizia? Até mesmo a campanha da Zara de algumas semanas atrás mostrou modelos meio andróginos, homens e mulheres, com moletom cinza. Bom, essa peça sempre foi genderless. E isso a GAP já fazia há 30 anos. Então, qual é a novidade?

E, por fim, para quê serve mesmo uma moda que iguale homens e mulheres? Na prática, para nada. Mulheres que queiram se vestir de homens e vice-versa podem fazer isso a qualquer momento, é só ir na seção ao lado (claro que não é tão simples achar algo bom, mas também não é impossível). E já nem é mais tão escandaloso como há alguns anos. Dependendo do país ninguém vai dar a mínima. Mas ao igualar homens e mulheres, ao menos na aparência, chama-se a atenção para a ideia de que precisamos lutar por igualdade em outras áreas, como no trabalho e salários, nas leis e no tratamento que a sociedade dispensa a cada um dos sexos. Falando pessoalmente, eu prefiro fazer isso usando minhas roupas bem femininas. Mas o dress code não é obrigatório, dessa vez.